A economia do sexo

on Sep 3, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

A libertação e a autonomia femininas são boas para a produtividade.

A economia tem um problema com o sexo? Segundo Victoria Bateman, sim. Para a economista de Cambridge, a disciplina económica tem sido dominada por uma visão masculina enviesada e unipolar sobre o desenvolvimento das sociedades. As perguntas a que The Sex Factor – How women made the West rich (Polity, 2019) procura responder são, por exemplo: por que é que o Ocidente se tornou tão rico? Por que é que a desigualdade está a aumentar? Até que ponto os mercados devem ser “livres”? E o que tem o sexo a ver com tudo isso? Victoria Bateman argumenta, corretamente, que a história geralmente centra-se em industriais e financeiros, todos eles homens. No entanto, a liberdade da mulher em tomar decisões de trabalho e família foi tão importante para criar as sementes da prosperidade quanto o papel dos homens.

Só podemos compreender o nosso tempo e a nossa economia se colocarmos o sexo e o género – “o fator sexo”, argumentado por Bateman – no centro da nossa análise. Realizando uma análise à escala temporal e do globo, a economista reúne argumentos convincentes sobre como o estatuto e a liberdade das mulheres na sociedade são fundamentais para a prosperidade. Neste livro, Bateman argumenta que a libertação feminina é boa para a produtividade e que a autonomia feminina, especialmente a autonomia corporal, é vital para o desenvolvimento económico.

A economia, enquanto disciplina que molda as nossas políticas, necessita de se tornar algo mais feminista. Ou seja, um feminismo não baseado apenas em valores, mas que assuma que nas relações de custo-benefício a igualdade de género tem muitas palavras a dizer na construção da prosperidade.

Bateman não é anticapitalista, mas gostaria de ver o debate económico, que normalmente opõe mercado vs. Estado, recentrar-se na “terra de ninguém”, o espaço económico onde o mercado não consegue atuar e o Estado não consegue controlar. Isto é, nas suas palavras, o espaço das relações de amor e família, da reprodução e do corpo. A sua análise leva-a a argumentar que os governos devem dar prioridade a políticas abrangentes de igualdade de género. Pois, argumenta, a economia não pode continuar a funcionar no pressuposto de que há sempre alguém em casa para passar a roupa, lavar a loiça e cuidar dos filhos enquanto a outra pessoa fica à secretária e trabalha até tarde.

Se queremos efetivamente perceber por que o Ocidente se tornou um caso de sucesso, que o resto do mundo procura emular, necessitamos de colocar as mulheres no centro da história. E, consequentemente, se queremos que as economias mais pobres de hoje se tornem mais ricas, a desigualdade diminua e que as alterações climáticas sejam controladas, necessitamos de aumentar as liberdades das mulheres. A liberdade da mulher necessita de vir primeiro e não em último lugar nas decisões políticas e económicas.

 

por Gustavo Cardoso

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