A culpa é do elétrico

on Apr 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

O notório jornalista de viagens da CBS declara o seu amor incondicional a Portugal.

A minha história de amor com Portugal começou por acaso, como sucede com tantas outras relações marcantes. No inverno de 1978, o meu voo de Copenhaga para Los Angeles foi cancelado e, em contrapartida, fui direcionado, de forma inverosímil, da Dinamarca para Lisboa, tendo de passar uma noite nesta cidade. Essa noite transformou-se num fim de semana prolongado, e o resto é história. Presumo que a culpa seja toda do elétrico. Um residente disse-me para entrar no elétrico amarelo de madeira, que me levou a conhecer aquela que descobri ser uma das cidades mais antigas da Europa Ocidental e do mundo. De repente, encontrei-me num lugar que alguns desdenhosamente designavam de “reino de um império morto”, mas rapidamente descobri que estava muito vivo. Caminhei pela deslumbrante Praça do Comércio, e por tantas ruas estreitas quanto pude. Não demorou muito para que me deparasse com o café A Brasileira, onde saboreei o meu primeiro (de muitos) pastel de nata. Este sítio grandioso tinha um charme especial, com a sua madeira escura, espelhos, latão, mesas de madeira e pedra, e de repente senti, pelo simples facto de estar ali, que era melhor escritor.

E, sem sequer ter planeado, de repente tinha sido agraciado com a combinação perfeita: uma história grandiosa, comida fantástica e o mar.

O que verdadeiramente me surpreendeu na altura foi o ritmo do país. Era intencionalmente lento. Forçava-nos a respirar mais profundamente, a ter conversas mais reflexivas, a sentar e observar. Eu já não tinha pressa para ir a lado nenhum. Em vez disso, contentava-me em estar simplesmente num lugar e abraçar o ambiente que me circundava.

No espaço de três meses, encontrei-me de regresso a Portugal, ansioso por mais. Usando Lisboa como ponto de partida, voei para o Algarve e mergulhei na pequena e praticamente esquecida cidade piscatória de Lagos. Não foi só a cidade, mas também uma ótima desculpa para andar de barco. Nunca esquecerei o episódio curioso, quando dei uma gorjeta ao taxista de Faro que me levou até lá, e a surpresa que senti quando ele correu atrás de mim para me dar o troco porque achou que eu lhe tinha pago demasiado. De regresso a Lisboa, viajei para Sintra antes do amanhecer, uns meros 30 minutos de carro, e mergulhei na Quinta da Regaleira, um palácio de estilo gótico construído em 1910; consegui caminhar entre ruínas romanas e subir para mais um elétrico antigo que fazia o percurso para a praia. À tarde, um passeio até ao Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa continental. Estar ali, sozinho, à beira de uma falésia, ver o pôr-do-sol no farol, foi um momento inesquecível para mim.

E foi assim que continuei a regressar a Portugal. Em viagens posteriores, ia para Cascais, depois para o Vale do Douro, no Norte. Depois, o Porto e os ímpares passeios vinícolas e também o interior rural do Alentejo, em grande parte por descobrir. Mais tarde, voei para a Madeira (e tive uma das mais emocionantes – e ventosas – aterragens que já experimentei… ou a que sobrevivi).

Mas rapidamente entrei em conflito. Comecei a acreditar que pertencia de facto a Portugal. O comediante americano Groucho Marx disse uma vez “nunca faria parte de um clube que ME aceitasse como membro!” Aí estava o meu dilema. Os portugueses aceitaram-me, não questionaram a minha presença, não olharam para mim como um turista, mas sim como um amigo que regressava. Foi um sentimento de acolhimento que representou uma total e sedutora surpresa.

O que complicou as coisas é que eu não acredito em reencarnações ou misticismos, mas, surpreendentemente, com Portugal abri uma exceção. Sempre que regressava, enquanto caminhava pelas ruas estreitas e pelos encantos do velho mundo de Lisboa, Cascais ou Évora, e os únicos sons que ouvia eram os meus próprios passos, começava a abraçar a noção muito real de que facilmente eu poderia ter vivido em Portugal numa vida anterior.

E, lenta mas inequivocamente, isso levou-me a adotar algumas das coisas materiais de Portugal para trazer de volta para a minha casa na Califórnia, a fim de me recordarem o meu “passado” imaginário nesse destino mágico. Comprei azulejos na Fábrica Sant’Anna – tantos que toda a minha cozinha foi reconstruída. O meu jardim estava cheio de vasos portugueses, pequenos e grandes. Comprei tapetes de lã feitos à mão. E belas pinturas a óleo de Lisboa antiga.

Sentia-me sempre atraído a regressar a Lisboa. E, em cada visita, subia ao Castelo de São Jorge, não só para ver o que restava dos edifícios mouros, os terraços de terracota, as vistas arrebatadoras da cidade e a intrincada azulejaria, mas também para observar os velhos a jogar xadrez. Admirava a sua dedicação ao jogo, mas sobretudo a sua paciência perante a passagem do tempo. Aprendi mais sobre a história da cidade, a ocupação pelos fenícios, gregos, cartagineses, romanos, celtas (para citar alguns).

E agora, quem foi conquistado pelo país… fui eu.

Felizmente, muito de Portugal permaneceu igual nos meus 40 anos de romance com o país. E muita coisa está a mudar, sem arruinar o passado. Atualmente, quando regresso a Lisboa, vou comer em arrojados restaurantes Michelin, mas ainda encontro tempo para saborear os pastéis de nata de Lisboa e os travesseiros de Sintra. Ainda subo as colinas, mas também me sento no rooftop bar do Tivoli, na Avenida da Liberdade, para ver o pôr-do-sol sobre a cidade. Arrasto os meus novos amigos para o barulhento Mercado Time Out do Cais do Sodré. Existe o tal espaço com 50 balcões diferentes, mas faço sempre uma paragem no Pap’Açorda, não só para jantar, mas também para a sobremesa e as porções demasiado generosas e obscenas de… mousse de chocolate. E, por ter sentido de humor, dou um salto à Lisbon Duck Store – um lugar inteiramente dedicado a… patos de borracha. Nunca saio de Lisboa sem acrescentar um à minha coleção!

Por fim, tal como na minha primeira viagem, volto sempre ao velho elétrico, visito os edifícios pintados de amarelo girassol da Praça do Comércio e retomo novamente o meu passeio.

 

por Peter Greenberg

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Peter Greenberg



Vencedor de vários Emmy - e galardoado nos TAP Awards 2019 -, o repórter de investigação e produtor Peter Greenberg é o mais reputado jornalista de viagens americano. Desde 2009 aparece regularmente na CBS News e na PBS, nesta última apresentando The Travel Detective, com emissão nacional.

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