A crise da democracia liberal

on Aug 1, 2018 in Bagagem de Mão | No Comments

Instituições em falência ou cidadãos descrentes?

As notícias que vemos são normalmente, ou anormalmente para alguns, vistas como apenas dando ênfase a problemas, crises e sofrimento. A interrogação é saber se a realidade é tão problemática quanto isso. A resposta é, obviamente, não. Há muitas mais coisas que não são notícia e, portanto, remetem para o positivo. Aquilo que nos preocupa não são as coisas positivas, mas sim as negativas, que, por isso, são notícia. Já nos livros ocorre uma realidade diferente. Há muito mais diversidade de abordagem, pois temos dramas, romances, literatura de viagens, BD (com todas as valências de argumentos e desenhos), autoajuda, biografias, livros académicos, etc. No entanto, porque as notícias são muitas vezes descritivas e a sua companheira, a opinião, é sobejamente construída de viés e por meias verdades, nos livros há quem fale sobre aquilo que é notícia, mas juntando-lhe significado e vislumbrando futuros. É esse o caso do novo livro de Manuel Castells, Ruptura – La crisis de la democracia liberal (Alianza Editorial). Castells é um dos autores mais citados a nível mundial e também consultor de muitos decisores políticos da Europa e do mundo. Para ele, por muito que desejemos que alguém apresente uma solução institucional, devemos refrear a nossa expectativa no que respeita à criação de “novos” modelos de Estado e de soluções políticas em roupagem “nova”. O motivo é simples: nos dois últimos séculos, sempre que a tal aspirámos, obtivemos regimes que colocaram em causa a liberdade individual. Vivemos hoje uma rutura com a democracia liberal, não porque as suas instituições estejam em falência total, mas porque os cidadãos deixaram de acreditar nelas. Se tivermos dúvidas, listemos os sinais nas palavras de Castells: subversão das instituições democráticas por caudillos narcisistas que cavalgam o desencanto com as instituições e a injustiça social; manipulação mediática realizada por políticos encantadores de serpentes; renovação aparente com a cooptação de projetos de mudança; consolidação de máfias e teocracias no poder, graças ao aproveitamento das estratégias geopolíticas das grandes potências; regresso a grande parte do mundo da brutalidade estatal irrestrita; e, por fim, entrincheiramento do cinismo político disfarçado de possibilismo realista da política partidária. O que temos é a lenta agonia da ordem política, mesmo que cada leitor ache que o seu país é, por enquanto, a exceção que confirma a regra. O que fazer? Acreditar em nós mesmos e na capacidade individual de nos juntarmos para objetivos comuns na reconstrução de baixo para cima das vidas no pessoal e no social. E não ser utópicos, pois utopia é acreditar que o sistema atual possa regenerar-se. A renovação institucional nascida desta matriz atual apenas poderá ter a mesma lógica autodestrutiva.

 

por Gustavo Cardoso

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