10 Básicos do Litoral do Rio de Janeiro

on Jun 1, 2010 in 10 Básicos | No Comments

Montanhas de mata atlântica de um lado, mar repleto de ilhas e enseadas luminosas do outro. Ao longo de 650 quilómetros, de Paraty a Búzios, passando pelo imenso rosário insular de Angra dos Reis, o litoral do Estado do Rio de Janeiro guarda o melhor da costa brasileira.

1 – O Rio e a Serra do Mar

A primeira imagem do Rio é de tal modo prodigiosa que quase juramos não poder haver lugar mais bonito. E se calhar não há mesmo, apesar de todas as assimetrias de que é feito. O lugar faz as pessoas e o Rio de Janeiro fez o povo mais feliz do Brasil. Já era assim quando, a 1 de Janeiro de 1502, a esquadra comandada por Gonçalo Coelho entrou na baía de Guanabara e encontrou nas praias homens e mulheres que gostavam de dançar e cantar nus. Quinhentos anos depois, continua a ser mais ou menos a mesma coisa. No Rio é difícil expulsar a natureza. Há divergências sobre a origem do nome da cidade, mas este é um dos casos em que o nome não tem qualquer peso semântico. Quando ouvimos falar em Rio de Janeiro não pensamos em nenhum curso fluvial. Pensamos em música, dança, chope, praia, morros, florestas, favelas… Se nos ativermos à questão geográfica, pensamos, acima de tudo, no recorte do litoral, no jogo entre o mar e a floresta verdejante. É uma imagem que resume, na perfeição, todo o litoral fluminense (como é conhecido o litoral do Estado do Rio de Janeiro). De Búzios, na Costa do Sol, a Angra dos Reis e a Paraty, na Costa Verde, o que encontramos é um formidável escol de ilhas, morros, florestas, enseadas, lagos, dunas, restingas, manguezais e baías povoadas de enseadas luminosas. São cerca de 635 quilómetros de costa bordejados pela imponente e verde Serra do Mar, a cadeia montanhosa revestida por importantes manchas de mata atlântica que se estende desde o Estado do Espírito Santo até ao Estado de Santa Catarina. Pura beleza tropical.

2 – As 365 ilhas de Angra dos Reis

Em Angra dos Reis, pequeno município situado a duas horas do Rio de Janeiro, há uma ilha para cada dia do ano e 2 mil praias, muitas delas completamente desertas. Pode-se correr toda a costa do Brasil que não se encontra nada igual, tão prodigioso e luxuriante, serra e mar lado a lado. É um dos lugares mais exclusivos e caros do “continente” brasileiro. No Verão ou nas épocas de festa, o mar chega quase a congestionar-se, tantas são as lanchas, iates e escunas que cruzam as águas tépidas e serenas da imensa baía de 1120 quilómetros quadrados que vai de Paraty a Angra dos Reis. É tão vasta e calma que os primeiros exploradores portugueses julgavam estar a navegar em direcção a uma enseada (angra) quando, no dia 6 de Janeiro de 1502, entraram nas suas águas. Angra não cresceu muito, mas nem por isso cresceu bem. Além de uma ou outra igreja e convento, o seu principal atractivo é mesmo o porto de onde partem os barcos para a Ilha Grande, a maior das 365 ilhas do município. A viagem demora cerca de 30 minutos, mas permite conhecer um pouco do território insular, a começar pelo postal de Angra, as Botinas, ou “Ilhas irmãs”, dois tufos de palmeiras sobre as rochas. Ou a ilha dos Porcos, do famoso cirurgião plástico Ivo Pitanguy.

3 – Uma península, 23 praias

Embora dê a ideia de se tratar de uma ilha, Búzios é uma península com oito quilómetros de comprimento, banhada a oeste por correntes do Equador e a leste por correntes do Pólo Sul. O que explica que a oeste se situem as praias de mar calmo, com águas tépidas e translúcidas, e a leste fiquem as de mar aberto, com algumas enseadas, mas de águas mais frias. O que encanta em Búzios é haver praias para todos os gostos. Por exemplo, se a intenção é fazer nudismo, existe a praia Olho de Boi, e para assistir ao pôr-do-sol não há melhor do que Manguinhos. Os que procuram mar aberto com condições para a prática de surf devem fixar este nome: Geribá. É a praia mais badalada de Búzios. Ainda na zona leste, a Praia Brava atrai muitos surfistas e gente que procura lugares mais isolados e selvagens. Fica perto das praias da Foca e Lagoinha, verdadeiras piscinas naturais. Os que sonham com praias abrigadas, banhadas por águas verdes cristalinas e bancos de corais, só têm um problema: escolher. Mas não se arrependerá quem eleger as praias dos Amores, Ferradurinha, João Fernandes, Fernandinho, Azeda e Azedinha. São pequenas, mas de uma enorme beleza, em particular, as duas últimas, minúsculas línguas de areia situadas em área de protecção ambiental.

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4 – Trindade, a última praia

A costa de Paraty estende-se ao longo de 180 quilómetros e está repleta de ilhas (50) e enseadas (43). O trecho mais luxuriante situa-se entre a cidade histórica e a vila de Trindade, ao longo do qual montanhas de mata atlântica terminam no mar e o mar entra terra adentro, criando até um fiorde tropical, o Saco do Mamanguá, com oito quilómetros de comprido e um de largura, único no Brasil. Muitas das ilhas e praias de Paraty situam-se perto da cidade e não faltam barcos a promover passeios (a empresa Paraty Tours é a indicada). Mas para conhecer as mais belas enseadas é preciso viajar até à vizinha Trindade, pequena vila de pescadores situada a 25 quilómetros de distância. A vila não é bonita, mas as praias, todas de mar aberto, compensam o mau gosto urbanístico. A praia do Meio é a mais frequentada, com restaurantes onde se pode comer marisco e peixe fresco. Dali parte um trilho para a praia do Cachadaço, um extenso e deserto areal que confina com algumas das mais exuberantes manchas verdes do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Um pouco mais à frente, perto da Cabeça do Índio, situa-se a piscina natural do Cachadaço, um dos lugares imperdíveis da região. Chega-se lá através de lanchas que se alugam na praia do Meio (cerca de 6 euros por pessoa). Numa criação notável da natureza, enormes rochas vulcânicas de variados tamanhos, dispostas mais ou menos em círculo, aprisionam a água do mar, criando uma piscina de águas límpidas povoadas de peixes coloridos. Enquanto houver sol, é o sítio perfeito para mergulhar, nadar e namorar.

5 – A Ilha Grande

São mais ao menos 193 quilómetros quadrados de montanhas, cachoeiras e praias (106) banhadas por um mar calmo a que se junta uma natureza sublimada pela fusão do verde clorofílico da mata atlântica com o verde-esmeralda dos rebordos marinhos. Os portugueses chegaram nos alvores do século XVI, quando o lugar era habitado pelos índios Tamoios e se chamava Ipaum Guaçu. O nome manteve-se, apenas traduzido para português, e com ele uma boa parte do ambiente primordial que cegou de beleza os descobridores europeus e encantou mais tarde o Imperador D. Pedro II. Muitas das praias da Ilha Grande continuam desertas e algumas têm sido eleitas como as mais belas do mundo. Vale a pena fixar os nomes: praias do Sul e do Leste (os dois lugares mais preservados e condicionados da ilha), Lopes Mendes (eleita pela revista americana Travel + Leisure como uma das 12 praias mais perfeitas do mundo), Lagoa Azul e Lagoa Verde (estas duas, autênticos aquários naturais).

6 – De jipe pela costa

De carro, pelo interior, a ligação entre o Rio de Janeiro e Búzios demora cerca de duas horas. Mas vale a pena reservar um dia para fazer a viagem de jipe pela costa, sempre junto ao mar, atravessando a Região dos Lagos e cruzando trechos exuberantes de mata atlântica, praias quase desertas e lagoas de uma beleza surpreendente (a empresa Jeep Tour, no Rio de Janeiro, é uma das que organizam estes passeios).
A partir de Niterói, onde é imperdível uma visita ao Museu de Arte Contemporânea de Niemeyer, o percurso segue por trilhos de terra ou de areia. São cerca de 100 quilómetros de costa, mar de um lado e montanha de outro. A primeira metade do trajecto é a mais selvagem, passando ao lado de algumas cidades costeiras, todas elas com praias belíssimas. O regresso a terra firme só acontece no município de Saquarema, cujo principal ícone é a igreja matriz, situada, de costas para o mar, no alto da escarpa. É um cenário que remete para as capelas que povoam o litoral do Norte de Portugal, embora sem o mesmo dramatismo paisagístico. Até ao final da viagem, ainda se cruzam mais umas quantas praias e lagoas, a maior das quais é a de Araruama, braço de mar que banha vários municípios. É tão grande que só através de fotografias tiradas de satélite se percebem os seus limites e mesmo assim é difícil ver onde se liga ao mar. A ligação faz-se pelo sinuoso Canal de Itajuru, em Cabo Frio, que, por se situar numa das zonas de exploração de petróleo mais importantes do Brasil, é hoje uma das cidades mais ricas e limpas do país. Búzios vem logo a seguir.

7 – Búzios, a estância dos famosos

Quando os portugueses, no início do século XVI, chegaram ao que é hoje Búzios, atraídos pela sua localização estratégica e pelo pau-brasil, o lugar era habitado pelos índios Tupinambás. A colonização começou logo a seguir, mas, algumas décadas mais tarde, os franceses, apoiados pelos nativos, expulsaram os portugueses, ainda que por pouco tempo. Em 1964, uma outra francesa, Brigitte Bardot, instalou-se por umas semanas em Búzios e desencadeou uma segunda revolução. A sua passagem teve o efeito de um cometa. Na altura, Búzios não passava de uma bucólica vila brasileira, sem luz eléctrica nem água canalizada, onde toda a gente vivia do mar. Numa das fotos que correram mundo, vê-se Brigitte Bardot caminhando na praia por entre porcos e galinhas, sob o olhar curioso de petizes e pescadores. Desde então, o pequeno lugarejo situado na Costa do Sol, a 165 quilómetros do Rio de Janeiro, nunca mais foi o mesmo. Como reconhecimento, a actriz teve direito a uma estátua de bronze na rua que leva o seu nome, a Orla Bardot. Hoje, apesar de manter uma artesanal actividade pesqueira, Búzios é uma espécie de Saint-Tropez dos trópicos, refúgio de gente famosa e endinheirada. Há centenas de pousadas espalhadas pelas suas colinas, restaurantes de alta cozinha e discotecas de fama universal, como a Paccha e a Privilege. Durante o dia, todos os caminhos vão dar às 23 praias existentes. A partir do fim da tarde e à noite, as atenções concentram-se na Orla Bardot e na contígua Rua das Pedras, com as suas lojas de marcas famosas, restaurantes, bares e discotecas.

8 – Do mar para a mesa

A gastronomia da região tem acento caiçara, palavra de origem tupi que designa as comunidades piscatórias. Em geral, não é sofisticada pois nasce da ideia de sobrevivência e vem do tempo dos índios, que pescavam e caçavam. Continuou com os colonizadores, que acrescentaram aos produtos do mar os produtos da roça, a influência africana e as especiarias das Índias. Actualmente vai para a mesa dos restaurantes modernos embrulhada em nomes singelos como “camarão casadinho”, “peixe com banana” ou “pé de moleque caiçara”, para citar três pratos do menu do Banana da Terra, talvez o melhor restaurante de Paraty. Em Búzios, terra de pescadores, o mar tem um peso ainda maior na cozinha local e o nível da restauração é muito mais requintado. Ali, a gastronomia transformou-se também numa atracção turística com ponto alto no festival Degusto Búzios, que abre a época de veraneio. O “point” gastronómico situa-se na Orla Bardot e estende-se às vizinhas Rua das Pedras e Praia dos Ossos. Chamam-lhe “Off Stone” e é uma verdadeira babel de sabores. Frente a um soberbo cenário costeiro, podem experimentar-se culinárias de diferentes latitudes, desde a tailandesa (Sawasdee), à francesa (Cigalon) e argentina (Don Juan). Sem esquecer a mais recente atracção, o Bar do Zé, brasileiro nos produtos e no sabor, mas muito contemporâneo e internacional nas propostas. Fora do “Off Stone”, há um lugar imperdível. Chama-se Quintal, fica na Praia de Manguinhos, e não é bem um restaurante. É a casa particular do chefe Nélson Filho, que pratica uma cozinha de inspiração portuguesa e italiana. Só atende clientes aos fins-de-semana e apenas por reserva.

9 – Paraty, relíquia colonial

Duas palmeiras imperiais, uma igreja ladeada de casas brancas com algumas portas azuis e amarelas, mar em frente, montanhas ao fundo. É esta a imagem postal de Paraty, tão perfeita que parece ter sido desenhada por um geómetra. Não há outra cidade brasileira que tenha sido edificada com o mesmo rigor cartesiano. Não a cidade nova, igual a tantas outras do país, mas sim a cidade velha, com os seus 31 quarteirões divididos por ruas rectilíneas e 400 edifícios, entre igrejas, casas térreas e sobrados de pedra e cal. É o mais harmonioso conjunto arquitectónico do século XVIII no Brasil e uma das poucas cidades do mundo que mantém as características originais. Muitas das casas acolhem hoje pousadas, bares, restaurantes e lojas de todo o tipo. Instalado numa zona plana frente ao mar a partir da doação feita em 1646 pela donatária Maria Jácome de Melo, o núcleo original de Paraty foi definido por engenheiros militares, seguindo o padrão das cidades portuguesas, em que as igrejas serviam de balizamento. Tudo foi pensado ao pormenor, a começar pela configuração das ruas, feitas com uma leve curvatura para permitir a invasão das marés. Era e continua a ser uma forma natural de manter a cidade limpa, motivo pelo qual as casas foram construídas 30 centímetros acima do nível das ruas, ainda hoje calcetadas com pedras irregulares, o chamado calcetamento “pé-de-moleque”. O centro histórico de Paraty faz-nos mergulhar nos ambientes urbanos coloniais e regressar ao tempo em que a cidade foi uma das principais portas de entrada para o interior do Brasil. O lugar tinha tudo: uma baía abrigada que servia como porto natural, água doce em abundância, planícies para cultivo e uma localização estratégica. Paraty começou por ser um importante centro de produção de açúcar, cachaça e farinha e entreposto de escravos para as plantações de São Paulo. As trocas comerciais eram feitas através da serra do Facão, por onde veio a passar depois o Caminho do Ouro, uma estrada de 1200 quilómetros que unia Paraty a Diamantina, em Minas Gerais. O ouro extraído em Minas era transportado em burros até Paraty e daqui seguia de barco até Portugal. Com o fim do ciclo do ouro e, mais tarde, do ciclo do café, a estrada foi sendo abandonada. Mas nos últimos anos, após a sua classificação como monumento nacional, uma parte do caminho tem vindo a ser recuperado. Perto da cidade colonial, ainda subsistem alguns troços em bom estado. Percorrê-los é como viajar pela história de Paraty e do Brasil.

10 – Cachoeiras, pinga e livros

As inúmeras cachoeiras que os rios e riachos das montanhas vão criando ao longo da sua caminhada para o mar são uma das grandes atracções de Paraty. A água é fria, mas a sua limpidez, o frescor da vegetação e a beleza romântica do cenário proporcionam uma experiência arrebatadora. Algumas das mais belas cachoeiras, como as da Pedra Branca e Penha, situam-se ao redor da estrada Paraty-Cunha, a poucos quilómetros da cidade colonial. A da Penha, indicada para descidas radicais, fica situada mesmo junto a um posto de informação do Caminho do Ouro, que passa por ali perto. No outro lado da estrada, funciona um alambique tradicional, onde pode ser degustada a pinga (cachaça de cana de açúcar) que tornou famosa Paraty. Em tempos, chegou a haver 1500 alambiques em Paraty, hoje são muito poucos, mas ainda assim suficientes para honrar a fama da pinga local, considerada uma das melhores do país. A partir de 2003, a cidade tornou-se famosa por outra coisa: os livros. Nesse ano, a Associação Casa Azul realizou a primeira Festa Literária Internacional de Paraty e conseguiu atrair autores mundialmente consagrados. A repercussão mediática foi enorme e as edições seguintes repetiram o êxito inicial. Hoje, a FLIP é já um dos principais festivais literários do mundo. A edição deste ano, com mais de 200 eventos culturais, decorrerá entre os dias 4 e 8 de Agosto e tem já confirmada a presença dos escritores Salman Rushdie e Azar Nafisi, entre outros. O homenageado será o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre (falecido em 1987), autor do livro Casa Grande e Senzala.

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Por Pedro Garcias

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