10 Básicos de Nantes

em May 1, 2014 in 10 Básicos | No Comments

Cidade de longa tradição portuária, mercantil e industrial, Nantes sofreu o choque do colapso das atividades tradicionais no início dos anos 80. Uma aposta visionária na animação cultural e nas indústrias criativas produziu um milagre, transformando-a no que é hoje: uma das cidades onde melhor se vive e onde mais apetece fazer turismo na Europa. 

Nantes por/by P. Gerard

1. Chaves de entrada

Altas paredes de granito, fossas cavadas em redor, espelho de água ao fundo, acesso único por uma estreita ponte levadiça, amplo pátio de cerimónias, acordeão de edifícios monumentais a toda a volta. O castelo de Nantes vem equipado com o pacote inteiro de clichés que fazem a celebridade dos castelos do rio Loire – à beira do qual, de resto, foi primeiro edificado. É, portanto, uma atração incontornável, mas mais do que isso é um excelente ponto de partida para “entrar” em Nantes. Porque foi no castelo que tudo, ou quase, aconteceu em termos políticos, desde a integração do Ducado da Bretanha no Reino de França, em 1532. Mas também porque, desde 2007, a antiga morada real acolhe a fabulosa história de uma cidade nascida para o comércio portuário e a aventura marítima.
Especialmente invocativas são as salas que documentam os ciclos de crescimento que ditaram a atual fisionomia de Nantes: o ouro negro do século XVIII, quando a cidade era o principal porto negreiro de França, o desenvolvimento do comércio ultramarino e da construção naval no século seguinte, a industrialização galopante na primeira metade do século XX (conservas, sabões, os famosos biscoitos da marca LU). A história fascina, baseando-se numa fluida combinação de peças de coleção e instalações multimédia. Depois da resenha histórica convirá ganhar uma visão igualmente abrangente da cidade. O alto das muralhas do castelo é um bom miradouro, mas melhor é o alto do edifício conhecido como o mais feio da cidade. É a alcunha da Torre da Bretanha, aberração de 176 metros de altura, inaugurada em 1976 a título de único arranha-céus entre Paris e Nova Iorque. O último andar foi recentemente convertido em bar da moda com uma cegonha gigante a servir de decoração (criação do artista Jean Jullien). As vistas a 360 graus são de cortar a respiração e, só para melhorar as coisas, o acesso ao topo da torre é totalmente gratuito.
www.nantes-tourisme.com
www.chateau-nantes.fr

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2. Parque de diversões

O grande Elefante / The great Elephant  por/by Jean-Dominique

A instalação de um bar-ninho de cegonha no alto de uma aberração brutalista já diz muito da reinvenção de Nantes. Rebobinando: no final dos anos 80 muitas indústrias e estaleiros encerraram, colando à cidade o rótulo ingrato de “bela adormecida”. Até que um novo executivo camarário (dirigido por Jean-Marc Ayrault, ex-primeiro-ministro francês) entrou em funções, decidido a reanimar culturalmente a cidade. Entre a primeira fornada de artistas convocados destacou-se a companhia de teatro de rua Royal de Luxe, que fez desfilar todo um sortido de criaturas feéricas de tamanhos colossais pelo centro da cidade. No dia seguinte a edilidade encomendou à companhia de François Delarozière um espetáculo permanente, que veio a consubstanciar-se nas Máquinas da Ilha: uma dezena de estruturas mecânicas que recriam o imaginário da cidade. O projeto, destinado a ocupar a Ilha de Nantes, foi inaugurado em 2007 com o Grande Elefante, paquiderme de 45 toneladas, 12 metros de altura, revestido por madeira da Virgínia e assente numa carcaça hidráulica irrigada por quatro toneladas de óleo. Desloca-se a uma velocidade de cinco quilómetros por hora, transportando 50 passageiros entre o seu cais e o Carrossel dos Mundos Marinhos, aberto há dois anos. O carrossel, gigante de 25 metros de altura por 22 de diâmetro, não é menos impressionante: são, na verdade, três carrosséis sobrepostos, invocando os fundos marinhos, os abismos e a superfície do mar, através de figuras fantásticas como a Luminária dos Grandes Fundos, o Peixe Pirata e o Polvo de Retropropulsão. Vê-las em movimento é um espetáculo, mas melhor ainda é experimentar as sensações fortes proporcionadas ao montar estas insólitas estruturas mecânicas. O programa Máquinas da Ilha completa-se na Galeria das Máquinas, onde está em demonstração a futura Árvore das Garças-Reais, ou melhor uma das duas aves mecânicas de oito metros de altura que a irão coroar, e vale a pena dar uma espreitadela ao ateliê vizinho, onde está em construção um centauro gigante. Frente ao carrossel, do outro lado do Loire, no alto da Colina de Sainte-Anne, fica o Museu Jules Verne. A casa-museu foi fixada no sítio onde o jovem Verne contemplava o rio e os estaleiros – os mesmos que foram reanimados pelas Máquinas da Ilha, que parecem saídas dos seus romances. O museu é pequeno, mas é ultraeficaz na equação do mestre da antecipação com os atuais avatares da cidade que o viu nascer.
www.lesmachines-nantes.fr
www.julesverne.nantes.fr

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3. Excursão artística

Estuaire, Nantes por/by Juean-Dominique Billaud

As Máquinas da Ilha são únicas, mas não nasceram sós. Foram, na realidade, lançadas em sincronia com Estuaire, projeto de criação de arte in situ que decorreu nos verões de 2007, 2009 e 2012. Metade das peças expostas saíram de cena no fim do evento, mas a outra metade – mais precisamente 29 – foi retida, marcando de forma permanente a paisagem onde se inscreveram. Parte significativa foi encomendada para Nantes, apostada em reinventar o seu tecido urbano. É o efeito mágico dos 18 anéis luminosos de Daniel Buren, dispostos paralelamente e de viés, ao longo da parede do Cais das Antilhas, como também da escultura informe do Atelier Van Lieshout, que abriga um café, nada por acaso frente à Faculdade de Arquitetura, ou da fita métrica gigante, instalada no quintal de uma imobiliária por Lilian Bourgeat. O projeto Estuaire não se restringiu, porém, à zona ribeirinha de Nantes, vindo a intervir em lugares atípicos ao longo dos cerca de 60 quilómetros de estuário do Loire, até Saint-Nazaire, correspondendo a um propósito de revalorização do rio e de construção política de uma grande zona metropolitana. É mesmo no meio de nenhures que se encontram algumas das obras mais emblemáticas, como o veleiro dobrado sobre a ponta da eclusa do Canal da Martinière, da autoria de Erwin Wurm, a mansão semiafundada a meio do rio de Jean-Luc Courcoult, ou a serpente marinha que Huang Yong Ping instalou à beira-mar, na ponta de Saint-Nazaire.
www.estuaire.info

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4.Quarteirão da Criação

Parque dos Estaleiros / Park of the Shipyards

O novo circo e a arte contemporânea são a face lúdica de um projeto de requalificação bem mais ambicioso, onde a parte de leão cabe à arquitetura e ao urbanismo. Significa que, em vez de mandar o legado industrial para a sucata, Nantes tem preferido restaurar e reciclar, ganhando assim novas atrações turísticas. Começou com o belíssimo edifício da fábrica de bolachas Lefèvre-Utile, à beira do Canal Saint-Félix, convertido logo no início dos anos 90 em Lugar Único (manteve as iniciais LU), centro de artes com salas de espetáculo e de exposições, hammam e restaurante. Pouco depois, arrancou o Parque dos Estaleiros, que reteve duas gruas Titan gigantes, três rampas de lançamento de navios, ao mesmo tempo que introduziu jardins (destaque para o das antigas fundições), passeios públicos e reabriu o antigo Hangar das Bananas, alinhando restaurantes, bares e discotecas. O Parque dos Estaleiros ocupa a ponta ocidental da Ilha de Nantes, 337 hectares de antigo vazio urbano em vias de tornar-se novo centro da cidade. Lá se encontram as Máquinas e várias instalações de Estuaires, mas também um conjunto crescente de peças de arquitetura singular, como o Palácio da Justiça, com a assinatura de Jean Nouvel, e as chamadas Grandes Escolas (arquitetura, design, artes plásticas e performativas). É o Quarteirão da Criação, dominado por edifícios tão espetaculares como o Manny, todo coberto por uma segunda pele de placas em turbilhão, e o Trempolino, onde um autocarro-estúdio de gravação foi instalado sobre um bunker nazi.
www.lelieuunique.com
www.trempo.com

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5. Linha verde

Catedral / Cathedral Saint-Pierre por/by Patrick Gérard

O renascimento de Nantes prova que a animação cultural é um tónico imbatível para a promoção turística e nunca a cidade à beira do Loire recebeu tantos visitantes como agora. Compreende-se assim que Jean Blaise, o Sr. Cultura, se tenha tornado em Sr. Turismo e lançado, em 2012, a Viagem a Nantes, sigla que designa três dispositivos articulados. É uma estrutura de promoção do destino, que integra todos os departamentos de turismo locais, um festival de verão com uma agenda carregada de espetáculos e exposições, e ainda um percurso de descoberta da cidade. Este percurso, que se pode fazer seguindo uma linha verde pintada no chão, vai desde a gare ferroviária até ao extremo oeste da ilha e passa pelas moradas clássicas, como a Catedral de Saint-Pierre, o Grande Teatro, o Museu de História Natural e a Ilha Feydeau, mas também pelas novas atrações, como o Memorial Antiescravatura, outra obra surpreendente, instalada nas próprias entranhas do antigo cais. É um percurso sempre igual e, no entanto, sempre diferente. Nantes ganhou estatuto de Capital Verde da Europa em 2013, lançando uma extensa programação de eventos para o celebrar – alguns a repetir este ano, como a montagem estival de uma cantina no Parque dos Estaleiros a servir de montra dos produtos locais de qualidade. Este ano a novidade é a decoração de montras por um batalhão de jovens artistas.
www.levoyageanantes.fr

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6. Cinematográfica

Pommeraye por/by Jean-Dominique Billaud

Quando se passeia à beira do Loire, quando se vagueia pelas ruelas do centro medieval da cidade, ou ainda quando se contempla Nantes de um dos seus muitos miradouros, fica a ideia de um cenário de filme, eventualmente com um certo perfume a déjà vu. Faz sentido: Nantes é também a cidade de Jacques Demy, cineasta que a filmou como mais ninguém, ao ponto de se dizer que transfigurou e até “encantou” a cidade – embora se deva logo acrescentar que a esposa, Agnès Varda, contribuiu e muito para esse efeito de magia. Certo é que depois de ver os seus filmes só apetece ir a Nantes e quando lá se chega é obrigatório fazer o tour das “capelas” Demy: a passagem Pommeraye, joia eclética onde se cruza o casal de apaixonados de Lola, o Grande Teatro e o restaurante La Cigale, onde também se passam cenas desse filme, a Câmara Municipal e os estaleiros navais, palcos da turbulência social dos anos 50, recordada em Une Chambre en Ville, ou a singela Allée des Tanneurs da sua infância, recuperada pela mulher em Jacquot de Nantes. Há, bem entendido, um circuito de descoberta Jacques Demy, que se pode fazer com guia ou com um desdobrável disponível nos postos de turismo.

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7. Visão radiosa

Nantes

Numa cidade com o passado industrial de Nantes surpreende a raridade de urbanizações modernistas. Na verdade, logo a seguir à II Grande Guerra, um plano de reconstrução da cidade foi riscado por Le Corbusier, que basicamente propunha arrasar o centro histórico para dar lugar ao género de aldeias verticais a que o arquiteto chamou Unidades de Habitação. O projeto não chegou a ser tomado a sério em Nantes, mas a cidade satélite de Rezé, mesmo colada à Ilha, aprovou uma réplica da famosa Cidade Radiosa de Marselha. Uma réplica mais modesta, resultante da encomenda de uma cooperativa de habitação, que ganhou a forma de um bloco de 294 apartamentos de rendas económicas, distribuídos por 17 níveis. Inaugurado em 1955 o edifício não partilha do fausto do de Marselha, mas vale mesmo assim a visita pela escola primária no telhado, que projeta no seu mosaico de janelas uma composição musical de Iannis Xenakis e, sobretudo, pelo apartamento 601, que nunca foi ocupado e conserva a decoração idealizada pelo arquiteto. O recheio, inspirado nos grandes paquetes, não existe em mais parte alguma e é uma lição de como aplicar as regras de ouro do famoso Modulor (sistema de proporções usado por Le Corbusier) à arquitetura de interiores.
wwww.maisonradieuse.org

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8. Escapadela

Trentemoult por/by Jean-Dominique Billaud

O sítio onde toda a gente de Nantes vai fora da cidade é Trentemoult. Fica mesmo em frente, na margem esquerda do rio, depois da Ilha e na ponta de Rezé, em direção ao mar. É mais agradável chegar lá na navette fluvial Navibus, que se apanha na gare marítima da cidade. Trentemoult é uma antiga aldeia piscatória onde se fazia praia e se ia ao baile na Belle Époque. Mantém essa aura nostálgica, agora numa versão bohemian chic, que leva a pintar de cores berrantes o casario informal e a decorar janelas e portas envidraçadas com bicicletas vintage e gatos sonolentos. Visto que só tem uma loja de bricabraque, vai-se lá sobretudo para desopilar, beber um copo ou comer no bistrot La Civelle, especializado em peixes e mariscos.

www.tan.fr
www.la-civelle.com

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9. Pântanos brancos e negros

Salinas de Guérande
O itinerário de obras de arte Estuaire, disseminadas pelas margens do Loire, é um ótimo pretexto para explorar as bucólicas paisagens na desembocadura do último rio selvagem de França. Uma vez na estrada apetece ir mais longe, eventualmente infletindo para norte à descoberta da costa recortada e das zonas húmidas que lhe sucedem para o interior. A linha litoral está bordejada de pequenas línguas de areia, que se tornam mais fotogénicas e menos concorridas de Croisic para cima, sobretudo para os lados de Piriac-sur-Mer. Os pântanos dividem-se em dois tons: brancos, os dois mil hectares de paisagem natural esculpida pelo homem para efeitos da exploração do sal; e negros como a turfa deles extraídos, os pântanos de La Brière, 170 km2 de zona húmida, que é a segunda maior de França. A vila medieval de Guérande, capital do “ouro branco” é uma verdadeira pérola medieval, mas o País Negro é mais selvagem e imponente, sobretudo quando abordado a partir de um desses botes a remos que serpenteiam pelos canaviais, abrindo silenciosamente a cortina sobre um paraíso ecológico frequentado por milhares de aves.
www.ohlaloireatlantique.com

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10. Moradas gulosas

Ostras / oysters
Situada numa encruzilhada fluvial, nas vizinhanças do mar, e com uma fértil interland, Nantes é abastecida por uma extraordinária quantidade e qualidade de produtos frescos. Vale então a pena, nem que seja para aguçar o apetite, dar um salto a Talensac (1937), o mercado principal da cidade, especialmente forte em peixes, frutas e legumes. Com matérias-primas deste quilate não admira a excelência da gastronomia e da restauração locais. Entre as suas mais apuradas expressões tradicionais cabe destacar a Maison Baron Lefevre, com todo um reportório de receitas clássicas assentes nos legumes do seu próprio jardim, e La Cigale, catedral Arte Nova e quartel-general dos surrealistas, que apesar de classificado como monumento nacional continua a caprichar na cozinha e no serviço. Num registo mais criativo merece especial menção Les Chants D’Avril, tanto pelas suas receitas surpresa como pela excelente relação qualidade/preço.
www.lestablesdenantes.fr

por Luís Maio

Arquivos

Souvenirs

Nantes é também um paraíso de compras, sobretudo para quem cultiva o chique das especialidades locais. É copiosa a gama de produtos regionais, onde cabe destacar o multissecular sal de Guérand e os não menos lendários vinhos do Val de Loire (incluindo o branco Muscadet, muito próximo dos nossos verdes), mas também os doces e os chocolates com receitas que remontam (no mínimo) à era colonial, do emblemático Gâteau Nantais (base de pó de amêndoa mais rum) às pitorescas sardinhas de chocolate, passando pelas bolachas das marcas LU e Trinitaine, verdadeiros sucessos planetários. No bairro medieval em redor da Catedral e daí para oeste até ao Teatro – sobretudo no elegante bairro de Bouffay – há imensas lojas especializadas nestes produtos, algumas centenárias e merecedoras de classificação patrimonial. O centro de Bouffay é a supracitada galeria de Pommeraye, que dispõe de um sortido imbatível de lojas singulares, dedicadas à comercialização de produtos tão singulares quanto cachimbos e camisas de homem com estampados pop.

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