10 básicos de Marrocos

on Mar 1, 2010 in 10 Básicos | No Comments

Mercados medievais labirínticos, kashbas berberes, ruínas romanas, especiarias e arquitecturas, delicados sabores e odores, luzes veladas, riads e palácios românticos, fortes portugueses, paisagens vermelhas, azuis, verdes e brancas, da cor das cidades imperiais. Marrocos é um mundo exótico, cheio de contrastes coloridos, cheiros e experiências, um bálsamo para os sentidos onde caem que nem tâmaras maduras os versos do poeta de Fez, Abdellatif Laâbi: “Esta luz/ Não pode ser descrita/ Ela é para beber/ Ela é para comer.”

1- Encruzilhada de civilizações
Marrocos era conhecido entre os árabes antigos como Al-Maghreb al-Aqsa, o lugar do sol-posto, e ficava nos limites do que era o mundo cartografado. Ponto de encontro entre árabes, europeus e africanos, as suas montanhas do Atlas figuram na mitologia grega. Território de idas e vindas, de invasores e de invadidos, as suas arquitecturas e técnicas, artes e sons, matemáticas e sabores infiltraram-se na Península Ibérica, criando a genuína alma andaluza e a paisagem algarvia. Antes, tinham chegado fenícios, romanos, vândalos, bizantinos e árabes, deparando-se sempre com os berberes. Pouco se sabe sobre a origem desta etnia à qual pertence cerca de 50 por cento da população actual de Marrocos. Sabe-se que eram guerreiros e que deram origem a duas importantes dinastias, os almorávidas (século XI) e os almoádas (século XII-XIII). Seguiram-se os merínidas e o declínio, até que chegaram os portugueses.
Em 1415, as tropas de D. João I conquistaram Ceuta, inaugurando a expansão portuguesa. Na tabela cronológica marroquina, aos saadianos (responsáveis pelo desaparecimento do rei português D. Sebastião, na Batalha dos Três Reis) seguiram-se os alauítas. No século XVII, o mulá Ismail consolidou uma periclitante independência. Mas eis que chega o século XIX e as potências europeias começam a cobiçar África. No xadrez, Marrocos coube à França. Passadas as grandes guerras, os marroquinos quiseram o país de volta e entregaram-no ao rei Mohammed V. Hoje, Mohammed VI, o seu neto, tem como maior desafio ajustar os desequilíbrios de um país que oscila entre o tradicional e moderno, num mundo que ali faz, outra vez, fronteira.

::

2 – O despertar dos sentidos
Quem aterra pela primeira vez em Marrocos fica confundido pela mistura de conservadorismo e liberalismo, tradição e modernidade. Os instrumentos musicais berberes competem com raï electrónico; os zellij (mosaicos de intrincados padrões) disputam atenções com modernas galerias de arte; e bailarinas de dança do ventre frequentam lounges zen.
Mas há tradições que não mudam. Como as pinturas de mãos, pés e rosto – desenhos e arabescos falando uma linguagem simbólica e sensual – que as mulheres berberes fazem com henna. Ou os hammams, banhos públicos que existem nos bairros desde tempos antiquíssimos. Para homens ou para mulheres, representam um elemento essencial na dinâmica social. Sobretudo das mulheres que ali convivem, mexericam e, muitas vezes, arranjam noiva aos filhos casadoiros. Ghassoul, óleos perfumados, sabão negro, água de rosas e escova de crina são materiais utilizados para embelezar o corpo e o cabelo nestas salas de vapores. Muito na moda, o óleo de argão é utilizado há milhares de anos como produto de beleza. É fabricado a partir dos frutos da arganeira, árvore que existe apenas no sudoeste de Marrocos.

::

3 – A arquitectura
A arquitectura é tipicamente muçulmana, mas tem o tempero do clima, das estruturas sociais e das rotas comerciais que cruzavam o país. As influências islâmicas e africanas estão presentes em austeras mesquitas, em exuberantes jardins, em interiores majestosos ou de subtil bom gosto. Fortificações no deserto, kashbahs, fortalezas portuguesas ao longo da costa e muralhas à volta de palácios atestam a história turbulenta. Nas cidades, as madraças (escolas corânicas), as mesquitas, os portões, os arcos e as cúpulas, os muros e cidadelas, as medinas e os souks (mercados), combinam madeiras e outras preciosidades com a fina arte da azulejaria e rigorosos padrões geométricos com uma profusão de cores intensas.
As casas típicas do Atlas, pisos com terraços no telhado, são comuns nas paisagens rurais, enquanto as ruas das medinas escondem atrás de simples portas de madeira os riads. Por vezes despojadas casas de família, outras vezes, insuspeitos palácios, que guardam à volta dos pátios interiores, laranjeiras, jardins, fontes, tesouros artísticos e arquitectónicos.

[DDET LER MAIS]

::

4 – Marraquexe
Viajando com Miguel Sousa Tavares pelo Sul: “Marraquexe viu chegar e partir gerações sucessivas de homens que a amaram como a nenhuma favorita dos seus haréns, que por ela se bateram e mataram, plantaram jardins minuciosos e geométricos, palácios de luminosos azulejos e pátios estudados para que a sombra do Sol durante o dia ou a da Lua à noite nunca revelasse tudo, exactamente, mas apenas aquilo que é devido à condição humana: ‘que pena que já não possas ver mais… a mais bela das cidades do Sul’”.
Colorida e exótica, misteriosa e sensual, velada e cosmopolita, simples e opulenta, é um dos lugares mágicos do mundo. Venerada por estrelas de cinema e desvendada por viajantes e aventureiros, Marraquexe quer dizer “parte depressa”, mas tudo nela apela ao oposto.
À praça Djemaa el Fna, Património Oral da Humanidade, convergem desde há séculos personagens de sabor intemporal. Todas as tardes, a praça se transforma num grande teatro de rua, palco de proezas para encantadores de serpentes, dentistas, amestradores de macacos, acrobatas, feiticeiros, aguadeiros, adivinhos, escrivães, cartomantes, dançarinos, músicos gnawa, tuaregues e contadores de histórias. E à noite, a praça é ocupada por restaurantes de rua, cujos candeeiros a gás iluminam cabeças de carneiro, especialidade local.
Mas não se esgota assim, esta cidade feita de história e de lendas, escolhida para ser o jardim de um povo. Na avenida Al-Menara, um jardim do século XII constitui uma obra da arte da irrigação. Imperdível é a visita ao Majorelle. Construído em 1920 pelo orientalista Jacques Majorelle e adquirido posteriormente por Yves Saint Laurent, é um jardim tropical no coração da cidade. Bambus gigantes, papiros, palmeiras, ciprestes, buganvílias e cactos contrastam com a cor intensa da fachada da villa, o famoso azul Majorelle.
Apanhe uma charrete e visite ainda o Palais de la Bahia – do século XIX, foi um presente do grão-vizir à favorita, de entre as 80 concubinas oficiais –, os Túmulos Saadianos, a Koutoubia, o Museu de Marraquexe, e o Museu de Arte Islâmica.

::

5 – Cidades imperiais
Fez, a cidade azul, Meknes a cidade verde, Rabat, a cidade branca e Marraquexe, a cidade vermelha. Das grandes, Casablanca é a única sem direito a cor, mas foi imortalizada a preto e branco por Humphrey Bogart, quando obrigava Ingrid Bergman a apanhar o avião para Lisboa para que não se arrependesse: “Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas em breve e para o resto da vida.”
Quem não se arrependeu foi Paul Bowles, o escritor americano, nascido em 1919, que fez de Tânger a sua casa (atraindo a trupe da geração beat). Escreveu ele sobre Fez (na revista Holiday, 1950): “O seu interesse recai menos nas relíquias do passado do que na vida das pessoas; essa vida é o passado, ainda vivo e a funcionar. Deve ser difícil encontrar outra cidade em que as vicissitudes diárias da vida urbana medieval possam ser estudadas com tanto pormenor.” Bowles referia-se a Fès el-Bali (Fez antiga), memorável experiência sensorial e antropológica. Na medina, atrás das portas, escondem-se, ricos palacetes, riads, simples lojas ou novos labirintos, túneis que levam aos tanques de tinturaria e às pequenas indústrias transformadoras que sobrevivem desde tempos medievais. No souk – emaranhado de ruas estreitas pelas quais transitam burros de carga, bicicletas e gente – cabe boa parte da história da cidade, a mais velha das imperiais, a mais vaidosa e intelectual.
Uma das suas rivais é Meknes, a verde, que Moulay Ismail (1672) transformou na “Versalhes de Marrocos”. A praça de el-Hedim, no centro da cidade, abre para o mais impressionante dos portões marroquinos, Bab el-Mansour. Rabat, a branca, fica dentro de muralhas, esconderijos para a capital moderna que se estende rente ao Atlântico.

::

6 – Costa Atlântica
Descendo a costa na companhia do Atlântico, sucedem-se as vilas piscatórias, as zonas industrializadas, as estâncias balneares e, com particular interesse para os portugueses, duas cidades imperdíveis. El-Jadida, a Mazagão do século XVI, onde se pode visitar um dos mais bem preservados monumentos da arquitectura militar portuguesa, a Cité Portugaise, com a sua elegante cisterna. E depois Essaouira, antiga Mogador, paraíso para surfistas e aventureiros, onde também vieram parar Bob Marley e Jimi Hendrix. As muralhas que protegem do mar a cidade velha são uma sólida construção traçada pelos portugueses, que empresta ao ambiente uma mística poderosa. Orson Welles tê-la-á aproveitado quando, em 1949, aqui rodou o seu Othelo.

::

7- Montanhas
O número significativo de montanhas atrai a Marrocos trekkers, alpinistas e aventureiros dispostos a desafiar os picos brancos do Alto Atlas, o rochoso semi-deserto de Jebel Sahro, ou as encostas isoladas das cordilheiras do Riff e dos Médio e Anti-Atlas, onde as genuínas tribos berberes vivem com os seus animais. O pico de Amtoudi, e as montanhas de Chefchaouen, Setti Fatma, Tafraoute, Sarhro, Tan Tan e o Tubkal (o ponto mais alto, a 4167 metros), entre outros, irão interessar certamente os amantes das alturas.

::

8 – Deserto
Os desertos, adversos, misteriosos, traiçoeiros e inesperadas fontes de vida quando já não resta qualquer esperança, são oásis, miragens e rotas de ancestrais povos nómadas, areias em movimento perpétuo desolando tudo à chegada, retiros espirituais para quem se senta nas dunas e sente o admirável nada absoluto. Fascinantes lugares. Como o maior deserto do mundo, o Sahara, que invade Marrocos a partir da Argélia com o seu enorme vazio, criando cenários de aridez e extraordinária beleza. Entre eles, o dos clássicos kasbahs do Vale do Drâa, que liga a meseta de Ouarzazate com Zagora, a “porta do deserto” para as caravanas que se dirigiam a Timbuctu, no actual Mali. Ou a beleza infinita das dunas rolantes de Merzouga. Para algo completamente diferente, junte-se a uma excursão de camelo e sinta-se um beduíno por breves instantes. Nada no horizonte, e, por cima da sua cabeça, só as estrelas.

::

9 – O gosto das especiarias
A cozinha marroquina é sensual, carregada de sabores e perfumes. As especiarias são o instrumento da sensualidade e os seus segredos, transmitidos de geração em geração, o toque pessoal. Os cominhos e açafrão estão por todo o lado. O Ras el Hanout é uma mistura vendida por todos os herboristes, contendo obrigatoriamente noz-moscada, gengibre, lavanda, cominhos e pimenta. As azeitonas, o mel, as laranjas e os frutos secos, tal como cuscuz e tajines, rivalizam com deliciosas iguarias regionais. A água de rosas é utilizada na pastelaria e as pétalas usadas para decorar mesas de festa. Outro dos convidados com lugar cativo à mesa é o chá de menta. O ritual do chá é uma das principais operações de charme dos hospitaleiros magrebinos. Servido em pequenos copos, devem tomar-se três, após as refeições.

::

10 – Extravagâncias étnicas
Os souks são as espinhas dorsais da pequena economia. Organizados por produtos, têm a mesquita ao centro, depois os vendedores de velas e incensos, os de livros, e assim sucessivamente. Às portas da cidade, onde dantes passava o comércio de caravanas, ficam as lojas dos ferreiros.
As lojas multiplicam-se por ruas e vielas nas labirínticas medinas. Cabedais, jóias berberes em prata, âmbar e coral, marroquinaria, artigos em cobre, latão e madeira, babuchas, djellabas, kaftans, essências e maquilhagens, tapetes, olaria, cerâmica, especiarias… Tudo se mistura num mundo de cores e odores. E não se acanhe: regateie, pois isso faz parte do ritual da compra, dando ao vendedor a oportunidade de exibir os seus dotes comerciais. Além das lojas na medina, considere para a bagagem de regresso as boutiques e lojas “Morocco chic” de Marraquexe, Casablanca, Essaouira, ou Rabat e o artesanato local em montanhas, vilas berberes, deserto ou localidades piscatórias.

[/DDET]

Por Patrícia Brito e Maria João Pavão Serra


Arquivos

Pub.

TAP Promoções TAP Promoções  
UP Eventos

A decorrer

«   /   » / Stop / Start