10 Básicos de Brasília

em Sep 1, 2012 in 10 Básicos | 2 Comments

Corre-se o mundo e não se encontra nada igual ou parecido a Brasília. A capital brasileira é tão revolucionária na forma como foi pensada e na arquitetura e poesia dos edifícios construídos que a UNESCO decidiu classificá-la como Património Cultural da Humanidade em 1987, apenas 27 anos depois de ter sido erguida a partir do vazio silencioso do cerrado – a savana brasileira.

 

 

1 – Utopia em construção

Profecia, aventura, utopia, obra de um visionário projetada por artistas geniais, épico de milhares de descamisados, a “cidade da esperança “ (André Malraux), “uma estrela espatifada no chão” (Clarice Lispector). Perante a sua monumentalidade, pioneirismo e significado para a nação brasileira, não há forma de sintetizar Brasília. A sua construção, verdadeiro ato desbravador do interior desconhecido e inabitado, assinala o advento do Brasil moderno, a saída definitiva do país-continente da esfera simbólica (e real) do colonialismo. A sua conceção foge a todos os paradigmas urbanísticos conhecidos (menos à dependência do automóvel. A deficiente rede de transportes públicos é a grande lacuna da cidade). Inaugurada no dia 21 de abril de 1960, a cidade mantém-se em construção, somando a cada ano novos monumentos aos monumentos fundadores: entre outros, o palácio da Alvorada (residência oficial da Presidência da República), os edifícios ministeriais, a Catedral Metropolitana (um dos ícones da cidade) e a praça dos três poderes, onde dialogam e se vigiam o palácio do Planalto (sede do Governo), o Supremo Tribunal de Justiça e o Congresso, com as suas duas torres ladeadas por uma abóbada côncava e outra convexa.

O tempo vai passando, mas Brasília não sai do futuro, continuando a deslumbrar com as suas formas arquitetónicas de uma leveza quase etérea e a espalhar a sua “síndrome dos três D”: “D” de desespero, que se manifesta nos primeiros tempos de permanência na cidade e que é associado à falta de “bússola” para entender a orgânica da cidade e também à ausência de raízes; “D” de deslumbramento, pela monumentalidade e proximidade com o poder; e “D” de demência, pela forma louca como a cidade acaba por se agarrar ao corpo e à alma dos seus habitantes.

 

2 – A meta-síntese de JK

No primeiro comício da sua campanha para a Presidência da República, em Jataí, uma cidade perdida no interior de Goiás, Juscelino Kubitschek, JK, foi confrontado por um dos ouvintes, Toniquinho, com a pergunta que haveria de mudar o rumo do Brasil: “O senhor disse que, se eleito, irá cumprir rigorosamente a Constituição. Desejo saber, então, se pretende pôr em prática o dispositivo da Carta Magna que determina, nas suas Disposições Transitórias, a mudança da capital federal para o Planalto Central”. JK, que parecia esperar a pergunta, respondeu. “Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do Governo”. Às 30 metas do seu programa, JK juntou então mais uma, a que chamou “meta-síntese”; e, chegado à Presidência, fixou um prazo para a construção da nova cidade na aspereza retorcida do cerrado: três anos e dez meses. Poucos acreditavam que o conseguisse. Mas, com a tenacidade própria dos audazes e dos sonhadores, e após mais de 200 viagens de avião entre o Rio de Janeiro e Brasília para acompanhar as obras, Kubitschek cumpriu o que prometeu. No dia 21 de abril de 1960, na data fixada, Brasília foi inaugurada, passando a partir desse dia a ser a nova capital do Brasil, um anseio que começou quando o país ainda era uma colónia portuguesa.

 

 

3 – Lúcio Costa e Oscar Niemeyer

Brasília deve as suas formas futuristas e inovadoras sobretudo a dois homens: Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Quando Lúcio Costa entrou no concurso para a elaboração do Plano-Piloto de Brasília, fê-lo sem intenção de assumir a obra. Era uma sugestão apenas. O urbanista apresentou uns desenhos simples com um texto descritivo a justificar a sua proposta, com a qual gastou apenas 64 horas de trabalho e 25 cruzeiros em papel comum, lápis, tinta e borracha. Mas para o júri, de que fazia parte Niemeyer, foi o suficiente. A “ideia” era genial. O projeto, como explicou o próprio Lúcio Costa, nasceu “do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio Sinal da Cruz”. Um eixo acolheria a parte monumental (os edifícios públicos), o outro a parte residencial, assente em superquadras, compostas por prédios residenciais com até seis andares com vão livre pelo uso de pilares e servidos por escolas, comércio e espaços culturais, religiosos, desportivos e de lazer. A ousadia do programa exigia um arquiteto à altura. Juscelino Kubitschek, que, enquanto prefeito de Belo Horizonte, desafiara Niemeyer a desenhar o projeto de Pampulha, voltou a recorrer a ele, nomeando-o arquiteto da nova capital. E fê-lo nestes termos: “Vou dar-lhe a mesma oportunidade que Júlio II proporcionou a Miguel Ângelo, ao pedir-lhe que fizesse o seu túmulo”. Trabalhando noite e dia, Niemeyer foi desenhando edifício atrás de edifício, a tempo de permitir a inauguração da cidade em apenas três anos e dez meses; e continuou nos anos seguintes a desenhar novas construções (a última foi a fantástica Torre de TV Digital, cujas formas evocam uma caliandra, flor típica da região), criando uma obra que, pela sua originalidade e monumentalidade, colocou Brasília na vanguarda da arquitetura moderna.

 

 

4 – Memória candanga

Na (curta) história de Brasília, a figura do candango ocupa um lugar especial. Termo de origem africana, era aplicado no Brasil ao trabalhador braçal e pobre do interior. Foram milhares desses homens, vindos de todos os lugares do país em busca da Terra Prometida, ou simplesmente para fugirem à fome e à miséria, muitos carregando mulher e filhos, que ergueram a nova capital. Imortalizados numa estátua de bronze de Bruno Giorgi instalada na Praça dos Três Poderes, são eles os verdadeiros heróis de Brasília. Começaram por se instalar na chamada Cidade Livre (um acampamento isento de impostos que deu origem ao atual Núcleo Bandeirante) e na vizinha Cidade Operária (hoje Candangolândia), onde ficavam os escritórios da Novacap, a empresa pública responsável pela construção de Brasília. Exatamente entre Candangolândia e o Núcleo Bandeirante fica o Museu Vivo da Memória Candanga, instalado nos barracões onde funcionou o primeiro hospital de Brasília. É um museu simples mas de visita obrigatória, que nos ajuda a perceber melhor a odisseia que foi a construção da nova capital. Fica perto do Catetinho, o bonito “Palácio de Tábuas” onde o presidente Juscelino Kubitschek viveu durante a construção de Brasília. Desenhado por Niemeyer, demorou apenas dez a dias a construir.

Museu Vivo da Memória Candanga
Via EPIA Sul – Lote D– Núcleo Bandeirante
Horário de Funcionamento: de terça a domingo das 9h00 às 17h00

 

 

5 – O lago Paranoá

A ideia do Plano Piloto de Brasília, de Lúcio Costa, passava por construir uma cidade que, sendo monumental, fosse “cómoda, eficiente e íntima”. E, ao mesmo tempo, “derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional”. Uma “cidade-parque” no meio da aridez poeirenta do cerrado. Niemeyer (acompanhado por Athos Bulcão, que, com os seus painéis de azulejos e outras instalações, acrescentou grandeza à arquitetura proposta), encarregou-se da parte monumental; e o paisagista Burle Marx assumiu a arborização e o ajardinamento da cidade (hoje uma das mais verdes do país). A construção de uma barragem no rio Paranoá, que não passava de um riacho, deu origem a um grande lago e acrescentou o elemento essencial que faltava para completar o puzzle e tornar a cidade mais bucólica e habitável: água. Hoje, o lago Paranoá é, a par dos monumentos, uma das grandes atrações da cidade, acolhendo nas suas margens clubes, restaurantes, bares e várias infraestruturas de lazer. Fazer um passeio no Barca Brasil ao entardecer, para apreciar a fantástica ponte JK, assistir ao pôr-do-sol e contemplar a cidade, é uma das mais exaltantes experiências que se pode ter em Brasília, só comparável a uma subida à Torre de TV, de onde se desfruta de uma panorâmica deslumbrante sobre a capital brasileira.

 

6 – Rock Brasília

As editoras musicais queriam fazer dele o “Bob Dylan do cerrado”, mas Renato Russo foi mais um “Jim Morrisson do planalto central”. Tal como o líder dos Doors, Renato Russo morreu cedo, mas de complicações provocadas pelo vírus HIV, e tornou-se uma lenda, permanecendo vivo na memória de uma geração de brasileiros que cresceu a ouvir as músicas da Legião Urbana, a banda rock de que foi mentor e vocalista. A Legião Urbana, já desaparecida, foi a mais popular banda rock do Brasil. Ainda é. Juntamente com grupos como Plebe Rude e Capital Inicial, fez parte de um movimento musical que, na década de 80, transformou Brasília na capital do rock do Brasil. Esse movimento inspirou o documentário “Rock Brasília – A era de ouro”, realizado em 2011 por Vladimir Carvalho (também ele um nome incontornável da capital, que tem no cinema uma das suas mais criativas indústrias culturais). Com a morte de Renato Russo e mais tarde de Cássia Eller (vista então como a nova Elis Regina), a cena rock brasiliense foi perdendo fôlego. Hoje, a grande referência é o grupo Móveis Coloniais de Acaju. Cultora de vários tipos de rock com influências de ska e música típica brasileira, a banda criou o seu próprio festival, o Móveis Convida, para dar a conhecer novos talentos. Mas são os sons tradicionais do Brasil, como o forró, o samba ou o choro, que mais têm emergido em Brasília. O Clube do Choro é, aliás, um dos lugares mais badalados da cidade e Hamilton de Hollanda o seu bandolinista mais virtuoso.

 

7 – O Açougue Cultural T– Bone

No Açougue Cultural T-Bone, o cliente pode comprar uma picanha e levar um livro de Schopenhauer para ler em casa. O mais certo é ouvir dos funcionários provocações do género: “Vai levar meio quilo de Saramago ou uns bifes de Machado de Assis?”. A história do Açougue T-Bone começou em 1994, quando o baiano Luís Amorim colocou uma estante no seu talho com 10 livros para emprestar aos clientes. Luís chegou a Brasília com sete anos, começou por engraxar sapatos, aos 12 foi trabalhar como ajudante no talho T-Bone e alfabetizou-se aos 16. Aos 18 anos leu o seu primeiro livro e, desde então, nunca mais parou de ler e de juntar livros. Em 1994, comprou o talho (a sua única fonte de rendimento) e iniciou um dos mais originais projetos culturais de Brasília: vender carne e emprestar livros. Nos primeiros anos, assumiu a tarefa sozinho. Mais tarde conseguiu atrair o interesse e o apoio financeiro de várias instituições públicas e de empresas como a Petrobras e criou a ONG Açougue Cultural T-Bone. Em 2002, Luís Amorim abriu uma biblioteca comunitária com mais de 45 mil livros. Em 2007, o Açougue deu início ao projeto Parada Cultural – Biblioteca Popular, pondo livros em várias paragens de autocarro. Mais recentemente lançou o projeto Estações Culturais, paragens com livros e internet livre. Em paralelo, Luís Amorim vai realizando bienais de poesia, noites culturais, encontros com escritores e lançamento de livros. Iniciativas que levam ao encerramento da rua onde se situa o talho e que atraem milhares de pessoas. “Cortar carne e fazer arte são duas coisas que muito me gratificam. Uma é complemento da outra”, diz.

www.t-bone.org.br

 

8 – O “velho” mercado municipal

Brasília é uma cidade nova, ainda sem o musgo criado pelo tempo, mas desde 2005 que tem a sua relíquia história, o seu mostruário de “velhice”: um mercado que invoca os tradicionais mercados europeus, de estilo Arte Nova. Jorge Ferreira é o mentor deste projeto de “retrocesso modernizante”, como lhe chama, inspirando-se nos versos de Carlos Drummond de Andrade: “Cansei de ser moderno; agora, serei eterno”. Após visitar muitos mercados municipais no Brasil e na Europa, Jorge foi comprando mobiliário, ferro e peças históricas um pouco por todo o lado. Depois convenceu alguns comerciantes de produtos gourmet do mercado de São Paulo a instalarem-se também em Brasília e recriou na avenida W3 Sul um “antigo” mercado municipal, onde é possível encontrar inúmeras delicatessen do Brasil e de vários lugares do mundo. Decorado com quadros e peças de importantes artistas brasileiros, o Mercado Municipal funciona não só como banca de produtos alimentares mas também como restaurante (mais gourmet na mezzanine do edifício principal, mais restaurante no boteco anexo, o Bar do Mercado) e espaço cultural. Jorge Ferreira é também poeta e letrista. Como empresário, está ligado ainda a outros bares conhecidos da cidade, como o Bar Brasília (vários vezes premiado pelo seu chope), o Armazém do Ferreira e o Feitiço Mineiro.

 

9 – Sabores do Brasil e do mundo

Embora seja a mais brasileira das cidades do Brasil, por não ter sido colonizada e ser habitada por pioneiros vindos de todas as regiões do país, Brasília não tem uma cozinha própria. Em contrapartida, a capital é uma verdadeira montra da gastronomia do país e do mundo. Com menos de 500 mil habitantes, Brasília já é o terceiro polo gastronómico do país (só perde para São Paulo e o Rio de Janeiro). Da comida peruana à japonesa, dos sabores baianos de influência africana aos mais indígenas do Pará, há um pouco de tudo na cidade Quem quiser comer uma surpreendente paelha marinheira pode, por exemplo, experimentar o restaurante Oliver, na Academia de Golfe. Para saborear carne assada de cortar à colher, o Parrilla Madrid é o lugar certo. Se a ideia é comer uma verdadeira pizza, basta entrar no vizinho Baco. Os amantes de cozinha japonesa vão adorar conhecer o Soho, um belo restaurante situado no Pontão do Lago Sul, um dos novos spots de Brasília. E quem aprecia comida mineira não pode deixar de passar pelo magnífico Esquina Mineira. Para curtir a noite de Brasília, também há inúmeras opções. Uma das mais populares é o café Balaio, com música tradicional brasileira. Recentemente, abriu na quadra 408 Sul o excelente bar 10 013, onde se pode jantar e ouvir jazz e blues ao vivo.

 

 

10 – Chapada Imperial

Brasília é uma cidade muito verde e florida, mas para mergulhar na ambiência do cerrado o melhor mesmo é fazer uma incursão até à Chapada Imperial, um santuário ecológico situado a cerca de 50 quilómetros de Brasília. O que torna a chapada especial, para além da beleza das paisagens típicas da região, são as luxuriantes cachoeiras (cerca de 30) que se vão formando em cascata a partir de uma nascente situada no interior da propriedade (privada). Todas são acessíveis a partir de trilhos de dificuldade variável e contam com guias experientes. O mais difícil demora cerca de três horas. Mas basta fazer o percurso médio, de menos de duas horas, para nos sentirmos no céu. O percurso termina na idílica cachoeira do Buruti (palmeira do cerrado). A limpidez e frescura refrescante das suas águas são uma verdadeira bênção e ajudam a fazer o caminho de regresso à casa-recepção da chapada, onde é possível almoçar um saboroso frango caipira (ou seja, frango do campo).

www.capadaimperial.com.br

 

por Pedro Garcias

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