10 básicos de Berlim
Apesar de ser a cidade hip do momento, Berlim transpira história por todos os poros. Nos finais do século XIX já era uma grande metrópole europeia, cujo encanto se equiparava a Paris, glamour que durou até ao final da década de 30, quando se tornou palco de uma das guerras mais sangrentas da história da humanidade e o mundo ficou partido em dois. Com a queda do muro, em 1989, Berlim reergueu-se, e nos últimos vinte anos tornou-se o símbolo da Alemanha reunificada, capital em constante mutação à qual é impossível ficar indiferente.
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1 – Breve história de Berlim
As primeiras referências às aldeias piscatórias de Cölln e Berlim – que em 1307 se juntam e formam Berlim-Cölln -, nas margens do rio Spree, surgem no século XIII. No século XVI a reforma religiosa de Martinho Lutero difunde-se pela região de Brandeburgo e a cidade cresce com a chegada de protestantes fugidos dos Países Baixos. Em 1761, famílias judaicas expulsas de Viena instalam-se em Berlim, tal como os huguenotes (protestantes franceses), obrigados a abandonar a pátria. A região de Brandeburgo fora entretanto elevada a reino por Friedrich I e Berlim torna-se a capital prussiana. A partir do século XIX industrializa-se e proliferam as siderurgias. Em 1871, torna-se a capital do Império Alemão, cumprindo as pretensões expansionistas de Otto von Bismarck. Por esta altura surgem as primeiras ideias anti-semitas. A deflagração da I Guerra Mundial, a fome e a posterior derrota da Alemanha na guerra dão azo à revolução de 1918 e à renúncia do Kaiser Wilhelm II. Em 1919, o social-democrata Friedrich Ebert é eleito Presidente da República Alemã. Com a reforma urbanística de 1920 a dimensão de Berlim triplica. O crash bolsista de 1929 e o assustador número de 600 mil desempregados ajudam à subida de Hitler ao poder, em 1933. Em Março desse ano, o partido nazi controla o Reichstag. Resultado? Prisões em massa de intelectuais e opositores ao regime, e a queima de 20 mil livros de autores “não alemães”. Retiram-se também dos museus obras consideradas “degeneradas”. Na noite de 9 de Novembro de 1938, conhecida como Noite de Cristal, foram incendiadas sinagogas, cemitérios, casas e lojas judaicas. A invasão da Polónia a 1 de Setembro de 1939 marca o início da II Guerra Mundial. O resultado é conhecido de todos, mas mesmo assim a cidade faz questão de nos reavivar a memória. Em cada edifício, rua ou praça, há legendas explicativas dos dramas sucessivos dos cidadãos de Berlim.
2 – O Muro
Da East Side Gallery, em Friedrichshain, à cinzenta Bernauer Strasse, onde fica o Centro de documentação do Muro de Berlim, tropeça-se constantemente no que resta da muralha erguida pela RDA, a 13 de Agosto de 1961. O muro (na realidade uma faixa inacessível entre dois muros) não era uma linha recta, mas um sinuoso rio de cimento construído para impedir a fuga maciça de cidadãos para Berlim Ocidental. Em Julho de 1945, na ressaca da guerra, a conferência de Potsdam dividia Berlim nos sectores soviético, americano, britânico e francês. Numa tentativa de anexar a cidade, a 28 de Junho de 1948, a União Soviética bloqueou os sectores ocidentais, impedindo os acessos rodoviários e ferroviários aos restantes aliados. Estes responderam com um corredor aéreo que reabasteceu a cidade até Maio de 49, altura em que o bloqueio acabou. Nesse ano nasceu a República Federal Alemã, com capital em Bona, e a República Democrática Alemã, com capital em Berlim Leste. A parte ocidental da cidade continuou a ser um enclave apenas acessível através de três corredores rodo-ferroviários e aéreos mantidos pela República Federal Alemã. Na Friedrichstrasse fica o Checkpoint Charlie, o único ponto de entrada em Berlim Leste acessível a estrangeiros até à queda do muro. A 9 de Novembro de 1989 o muro caiu, e abriram-se as fronteiras entre as duas repúblicas. A 3 de Outubro de 1990 a Alemanha voltou a reunificar-se.
East Side Gallery
www.eastsidegallery.com
Centro de documentação do muro
www.berliner-mauer-dokumentationszentrum.de
Museu do Muro
www.mauermuseum.de
Trilho do muro
www.berlin.de/mauer
3 – Melting pot
Berlim não é representativa do resto da Alemanha. Pela cidade galgam várias subculturas que encontraram aqui um modo de vida. Kreuzberg, a sul do rio Spree, é um bom exemplo. Neste bairro, autêntica miscelânea cultural, vivem emigrantes turcos, polacos, exilados políticos, artistas, estudantes e punks, aos quais se juntaram recentemente colarinhos brancos que estão a transformar antigas fábricas em lofts de luxo. Sitiado pelo muro em três frentes, o bairro, que no final dos anos 60 atraía estrangeiros pelas rendas baratas, tornou-se famoso e até dizem que ali as noites são as mais longas, especialmente na área SO36 do bairro, código postal que deu nome ao homónimo club nocturno, frequentado por Iggy Pop e David Bowie. A cultura urbana vibra por todos os lados. Nos grafittis colossais que preenchem as empenas dos prédios, nas galerias a borbulhar de arte emergente e nos imbiss (restaurantes de snacks), que propõem gastronomias do mundo.
So36
www.so36.com
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4 – Cidade de museus
Com duas centenas de museus aos pés, seria preciso um ano sabático para vê-los de fio a pavio. O que se pode fazer é escolher as temáticas que mais interessam a cada um, tendo em conta que Berlim possui dos melhores acervos do mundo. Há os incontornáveis, que nos transportam até séculos distantes, como o Pergamon Museum, ou os que tiram o fôlego, como o surpreendente Museu Judaico, verdadeiro murro no estômago. O edifício, cuja estrutura se assemelha à estrela de David estilhaçada, é um projecto de Daniel Libeskind. No desenho do edifício, a que o arquitecto chama “entre linhas”, podemos ler as grandes tensões da história judaico-alemã. Aqui, a arquitectura converte a História numa experiência sensorial. Para um prolongamento do filme Goodbye Lenine é rumar ao DDR Museum. Ali pode sentar-se ao volante de um Trabant, o carro modelo da RDA, e perceber o significado da palavra ostalgie – a soma das palavras Ost (leste) e nostalgie (nostalgia). O design do museu é vintage, e o objectivo é bisbilhotar o modo de vida do antigo cidadão da Alemanha de Leste, ao som dos Phudys e dos Karat, bandas da RDA. Em Berlim Ocidental não deixe de mergulhar na vida e na obra do fotógrafo judeu Helmut Newton.
Museus de Berlim
www.smb.museum/smb/home/index.php
Museu Judaico
www.juedisches-museum-berlin.de
Museu da RDA
www.ddr-museum.de
Fundação Helmut Newton
www.helmutnewton.com
5 – Jardins e parques
Verde, cheia de parques e jardins a pedir que se invista no físico ou apenas que se respire ar puro. Assim é Berlim. Alguns deles são invadidos por toda a espécie de feiras. É o que acontece no Mauer Park, aos domingos. Além da feira da ladra (onde o forte é o souvenir da RDA), realizam-se no relvado concertos e churrascos improvisados, bem regados por cerveja local, assim como um karaoke móvel que arrasta multidões. Caminhar pelo bucólico Tiergarten, o pulmão de Berlim, dá a sensação de se estar num bosque abençoado pela Siegessäule (Coluna da Deusa Vitória) que conhecemos do filme de Wim Wenders, Asas do Desejo. O Jardim Botânico, o Monbiju Park e o Viktoriapark são outros exemplos de espaços verdes na capital alemã. Com bastante arvoredo, o Volkspark tem como atracção a fonte de contos de fadas onde brincam personagens saídas dos contos dos irmãos Grimm. Para usufruir em pleno do verde faça um passeio de barco. No Mitte, em Prenzlauerberg, em Friedchshain, ou em Kreuzberg, os bairros mais centrais da cidade, parece, por vezes, que estamos em aldeias com vida própria, cujas ruas arborizadas (tílias e cerejeiras japonesas) são morada de pássaros que ajudam a compor a banda sonora da cidade, onde é raro ouvir-se uma buzina tocar.
Passeios de barco nos rios de Berlim
www.sternundkreis.de
6 – Relíquias arquitectónicas
Não há obra mais representativa da história de Berlim do que a Porta de Brandeburgo. Ali disputam atenção animadores vestidos de ursos (símbolo da cidade) e de soldados russos. O monumento neoclássico, da autoria de Carl Langhans, tem como coroa a Quadriga, levada para Paris aquando da ocupação de Napoleão e devolvida a Berlim após a sua derrota, tornando-se símbolo da vitória sobre as tropas napoleónicas. A porta assistiu aos acontecimentos chave da história da cidade. Nela, foi hasteada a bandeira russa em Maio de 1945. Atrás do Hotel Adlon, o Memorial do Holocausto, do arquitecto Peter Eisemann, é o ponto de encontro da cidade. As 2711 colunas servem de bancos improvisados para namoro e são visitadas e percorridas por inúmeros turistas. Todos estes apontamentos monumentais se erguem à volta da Unter Der Linden, a avenida das tílias, uma das mais famosas da cidade. Atravessando a mítica porta para Oeste temos, do lado direito, o Reichstag, onde fica actualmente o Parlamento. A moderna cúpula em vidro projectada por Norman Foster foi inaugurada em 1999 e atrai filas infindáveis de visitantes. Lá no alto demore-se em magníficas vistas sobre o Tiergarten, a nova Chancelaria e a Potsdamer Platz. A atmosfera de Berlim Leste sente-se percorrendo a Karl Marx Allé, avenida monumental onde se desenrolavam as marchas comunistas até à Alexanderplatz. A estrada para leste, em direcção à Polónia e a Moscovo, é um museu a céu aberto da arquitectura realista socialista. É lá que fica a Karl Marx Buchhanlung (livraria) – hoje ocupada pela Câmara de Arquitectos -, cenário do filme alemão A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck. Outro símbolo do regime é a Fernsehturm, a torre de televisão a que os locais chamam espargo, legume bastante apreciado na cozinha alemã. Reserve bilhete mal chegue a Berlim, porque são sete cães a um osso.
Turismo de Berlim
www.visitberlin.de
Torre da Televisão
www.tv-turm.de
7 – Arty & Trendy
Em Berlim qualquer parede está a jeito para receber uma ideia pictórica, um sonho, um pesadelo ou uma impressão grafitada. Desde 1990 que a ruína de um antigo centro comercial judeu, bombardeado na II Guerra Mundial, é o baluarte da arte de rua. Situado na Orienburger Strasse, o Tacheles é um edifício ocupado (squat) por artistas de todo o mundo cujo sonho é vencer no mundo das artes. E nem a decadência e o facto de virem a ser despejados num futuro próximo vence o amor à arte e ao squat. Em toda a cidade, mas sobretudo no Leste, há squats onde as intervenções artísticas se misturam com palavras de ordem contra o capitalismo. Na área onde os bairros de Mitte e de Prenzlauerberg se cruzam, as ruas transbordam de arte contemporânea. Na August e na Tucholsky Strasse as galerias de arte intercalam com boutiques de roupa de autor, papelarias, cafés e bares frequentados por gente sorridente. Ainda no Mitte, não deixe de visitar os oito renovados pátios do Hackesche Höfe. O primeiro – da autoria do arquitecto August Endell -, magnífico exemplar de arte nova, está povoado de galerias, restaurantes, cinemas e teatros. Compras “avant-garde” fazem-se na vizinha Kastanienalle, onde o vintage se mistura com o design arrojado.
Tacheles
www.tacheles.de
Papelaria Sieben Wünsche
www.sieben-wuensche.de
Galeria Dam
dam-berlin.de
Galeria Ando Fine Art
www.aandofineart.com
Gitte Weise Galerie
www.gitteweisegallery.com
Hackesche Höfe
www.hackesche-hoefe.com
8 – Sempre em festa
Não faz grande diferença o dia da semana que se elege para desbravar a noite de Berlim. A cidade está sempre acordada, e nem à noite a bicicleta deixa de cumprir a função de meio de transporte favorito. Miúdas de saltos altos, em cima das suas velozes duas rodas, seguem estrada fora no rasto de uma berliner weiss (cerveja com xarope) e de uma contradança. Na capital alemã a noite é descomplexada. Em Prenzalauerberg há o Roadrunners Paradise, onde aperaltadas pin-ups que parecem saídas dos anos 50 aproveitam para rock’n’rollar. No outro lado da rua, o Bassy Club apresenta concertos freakbeat à média luz, em ambiente púrpura. No número 28 da Simon Dash, em Friedichshain, há muito de burlesco e russo no bar Primitiv, a começar pelo cinema mudo made in URSS que passa no ecrã. No Kaffee Burger também há russendisko com fartura. Para imaginar como se dançava o lipsi – a dança da RDA – vá ao Clärchens Ballhaus, onde poderá assistir a aulas de dança e concertos num ambiente retro e vintage. Para mergulhar num cocktail, o ideal é molhar os pés no rio Spree e entrar na atmosfera fabril do Badeshif, que tem piscina privada e música de dança para os convivas. Nas catacumbas do restaurante internacional White Trash há garage e “bring your pipe smoking cinema”. O hip do momento, contudo, é o Berghain-Panorama Bar – uma antiga fábrica.
Roadrunners Paradise
www.roadrunners-paradise.de
Bassy Club
www.bassy-club.de
Primtiv club
www.myspace.com/primitivclub
White Trash
www.whitetrashfastfood.com
Berghain Panorama
www.berghain.de
Kaffee Burger
www.kaffeeburger.de
Clärchens Ballhaus
www.ballhaus.de
9 – Do currywurst ao donner kebab
O berlinense adora um brunch a desoras ao domingo. O Gagarin, café de Prenzlauerberg, vizinho do Pasternak, é famoso por ter um dos melhores de Berlim. Conte pelo menos com um buffet variado e de pratos em constante andamento, num non stop de “eat as much as you like”. Sob o olhar atento das matrioskas são servidos também pratos russos, como os Bliny (crepes) ou a Borchtsch (sopa de beterraba). Com pequenos-almoços destes, o almoço é necessariamente uma refeição leve que pode ser tomada nos milhares de imbiss espalhados pela cidade onde se vende comida rápida e barata. Os pitéus mais apreciados são o currywurst, uma salsicha cortada aos bocadinhos servida com um molho picante de caril e tomate, e os donner kebab. No Hasir há um colorido de gente na fila de espera. Lá dentro, turcos tomam as suas refeições acompanhadas de chá. Para experimentar as especialidades de porco, sempre de mãos dadas com chucrute, aconselha-se o tradicional Zum Nussbaum, no bairro de Nicolaiviertel. Não se deixe assustar pela textura do eisbein – nós cá diríamos pernil e não ficaríamos tão admirados. Se preferir cozinha de autor vá ao Oderquelle. Entre Abril e Julho é a época dos espargos, que podem ser um bom acompanhamento para um lammschinken (cordeiro fumado) ou para um schweine fillet (panado de porco). Para pratos internacionais destaca-se o Freischwimmer, soberbamente localizado aos pés do rio Spree.
Bar Gagarin
www.bar-gagarin.com
Oderquelle
www.oderquelle.de
Tucholsky
www.restauration-tucholsky.de
Hasir
www.hasir.de
Pasternak
restaurant-pasternak.de/en/
Freischwimmer
www.arena-berlin.de
10 – Banho de cultura
O melhor que há a fazer para que as 24 horas estiquem e as distâncias encurtem é alugar uma bicicleta. Num dos pátios do Kulturbrauerei, uma antiga fábrica de cerveja do Leste, pode alugar uma por horas ou dias. Por detrás dos edifícios de tijolo, há teatros, cinemas e galerias de design onde também decorrem concertos. Mais eruditos são os concertos na Filarmónica de Berlim, cuja programação é diversa e onde a orquestra metropolitana é residente. Se puder chegue meia hora antes e beba uma taça de champanhe acompanhada de um pretzel (salgado alemão em forma de nó). Se sonha com ópera, em Berlim encontra a Staatsoper, a mais antiga do mundo, datada de 1743. Mais cómica, como o nome indica, é a Komishe Oper. A caminho do sumptuoso palácio de Charlottenbourg, onde também há concertos, faça uma pausa na Literaturhaus, café literário rodeado por um roseiral numa transversal da avenida Ku’damm. Nas imediações abundam poisos culturais como o Gainsbourg ou o Quasimodo, instituição do jazz com programação diária. Em Julho actuam na cidade artistas de renome internacional como Rod Stewart, Patti Smith, Prince, Scissors Sisters, Everlast, Stevie Wonder, Orquestra Buena Vista Social Club e Gilberto Gil. O evento cultural mais célebre da cidade, a Berlinale (festival de cinema), fará no próximo ano (em Fevereiro) 61 anos de vida, mas este Verão o grande acontecimento cultural é a sexta edição da Bienal de Arte Contemporânea de Berlim, que decorre até 8 de Agosto.
Aluguer de bicicletas, Berlim
www.berlinonbike.de
Kulturbrauerei
kulturbrauerei-berlin.de
Filarmónica de Berlim
www.berliner-philharmoniker.de
Staatsoper
www.staatsoper-berlin.org
Ópera Cómica
www.komische-oper-berlin.de
Palácio de Charlottenbourg
www.spsg.de
Literaturhaus
www.literaturhaus-berlin.de
Gainsbourg Bar
www.gainsbourg.de
Quasimodo
www.quasimodo.de
Cultura & bilhetes
www.berlin.de
Festival de Cinema de Berlim
www.berlinale.de
Bienal de Arte Contemporânea de Berlim
www.berlinbiennale.de
[/DDET]
por Maria João Veloso
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