10 Básicos de Aveiro

em Aug 1, 2012 in 10 Básicos | No Comments

Ali mesmo onde a ria encontra o mar, a região de Aveiro tem praias a perder de vista, reservas naturais com várias espécies protegidas, memórias vivas da faina do bacalhau, salinas que ainda fazem sal, arquiteturas com assinatura, azulejaria e cerâmica com séculos de tradição, barcos típicos que levam os viajantes pelos caminhos das águas. Ah, e tem ovos-moles, espécie de paraíso em forma de doce.

 

 

1 – Veneza de Portugal

Terra com vista para o mar, construída sobre a laguna, Aveiro tem braços da ria que entram pela cidade dentro, estradas líquidas para os barcos moliceiros e quem neles viaja à descoberta da Beira-mar e da Glória, a baixa e a alta da cidade, e das marinhas de sal que a circundam. A arte do sal e a pesca em alto mar são atividades milenares ligadas à região, mas a mais antiga forma do topónimo Aveiro consta no testamento da Condessa Mumadona Dias que, a 26 de janeiro de 959, doa ao Mosteiro de Guimarães “suis terras in Alauario et Salinas”. O lugar é elevado a vila três séculos mais tarde e em 1472 exulta com a chegada de Joana, Princesa de Portugal, que recolhe ao Convento de Jesus ali instalado. Até finais do século XVI a região prospera com o comércio marítimo, a construção naval, a pesca na Terra Nova. Mas a ligação com o mar é instável e durante quase dois séculos há de fechar-se lentamente, desligando a ria do mar, arruinando negócios e fazendo da vila um lugar insalubre. Só em 1808, já Aveiro é cidade há meio século, se firma definitivamente a Barra, único canal que corta as areias do litoral e permite o acesso de embarcações de grande calado ao porto. Aveiro renasce, os ventos liberais sopram com força e aveirenses como o político José Estêvão de Magalhães vão estar na linha da frente (como no princípio de 70 do século seguinte estarão os participantes dos Congressos da Oposição Democrática, que abalam o regime ditatorial). Em 1864 a linha férrea que une Porto a Lisboa passa na cidade, abrindo caminho para a nova burguesia que 50 anos mais tarde marcará Aveiro com as suas casas Arte Nova, e para a atual capital de distrito, a segunda mais populosa da região centro. Por terra e por ria, Aveiro é uma região eminentemente visitável, com praias magníficas, um rico património cultural e uma oferta de interesse crescente para vários tipos de viajante.

Aveiro Welcome Center
www.aveiro.eu

2 -  Espelhos do céu

O “era uma vez” de Aveiro escreve-se primeiro nas salinas, retângulos traçados na ria e ligados por uma série de pequenos canais controlados pela sabedoria ancestral do marnoto (trabalhador do sal) e que, juntamente com a salineira (vendedora de sal) e a tricana (vendedora de peixe), compõe o triunvirato das figuras castiças de Aveiro. A arte de fazer o sal confunde-se com a história da cidade e, se é certo que das 367 salinas do período áureo apenas sete sobrevivem, hoje é possível experimentar essa arte no Ecomuseu da Troncalhada, uma marinha de sal situada ao longo do Canal das Pirâmides, a funcionar entre julho e setembro com as alfaias e práticas seculares dos marnotos de Aveiro. Outra das culturas de sal em franco funcionamento – e no coração da zona de protecção especial da ria de Aveiro – é a Ilha dos Puxadoiros, 36 hectares a produzirem cem toneladas de sal e flor de sal por ano, segundo o método tradicional. A ilha passou a ser visitável este verão, acolhendo pequenos grupos interessados não apenas na salinicultura (até se pode ser marnoto por um dia), mas também em atividades náuticas e de turismo sustentável, com enfoque na observação de aves – há ali um santuário de flamingos, pernilongas, tentilhões e andorinhas-anãs com a cidade lá atrás, tão perto e tão longe. Aqui se ensaia também a cultura da salicórnia, planta endógena que substitui o sal e é cada vez mais procurada pela cozinha gourmet e biológica, e da ostra que, como a enguia, encontra um ambiente óptimo para se desenvolver. Mas sobretudo, a Ilha dos Puxadoiros é o lugar onde se percebe claramente porque chamam às salinas os espelhos do céu.

 

Ecomuseu Marinha da Troncalhada
www.aveiro.co.pt

Ilha dos Puxadoiros
www.saldosol.net

 

3 – Moliceiros (e bicicletas)

Os canais de Aveiro são caminhos de água para os moliceiros, barcos típicos da região resgatados à faina tradicional para os prazeres do turismo e uma das melhores maneiras de ver a cidade. O moliceiro tem a graça das gôndolas venezianas, a sua forma de meia-lua, a proa alta, o leme de grandes dimensões e o calado pequeno que lhe permite navegar em águas pouco profundas, mas distingue-se delas pelo colorido e ingenuidade dos desenhos que o decoram, pelos 15 metros de comprimento e, claro, pela sua função original. Ideal para a apanha do moliço – sedimento de algas da ria usado para adubar as terras – de vela enfunada ou com o barqueiro movendo o barco com uma longa vara, o moliceiro entrou em desuso com a introdução dos adubos químicos na agricultura. O turismo resgatou-o para uma nova vida, a dos passeios com vários formatos e duração e sempre com a história da cidade a acompanhar. Quase todos partem do Canal Central, prosseguem para o Canal das Pirâmides que rodeia a Beira-mar – a zona mais antiga da cidade, a dar para as salinas – e acabam no Canal do Côjo, com passagem pelo Centro de Congressos, antiga Fábrica de Cerâmica Campos e memória da importante zona de olarias e cerâmicas de Aveiro (produtora dos famosos painéis de azulejos da Estação de Caminhos de Ferro e da Igreja da Misericórdia, por exemplo). No verão, as pirâmides de sal secam ao sol, as Festas da Ria embandeiram os canais e acolhem a tradicional Regata dos Moliceiros entre a Praia da Torreira e Aveiro, um espetáculo imperdível. Para algo radicalmente diferente mas complementar, Catarina Diogo inventariou as zonas de interesse que não são vistas dos canais, descobriu uma máquina pedaladora (espécie de riquexó em versão bicicleta) e criou Bik&Vento, visitas ecológicas com ciclista incluído e aplicação para telemóvel com a história dos pontos a visitar (início no Rossio e grande oportunidade para ver a Igreja de São Gonçalinho, santo da devoção particular dos aveirenses que durante as festas, três dias em janeiro, atiram cavacas – bolos duros – do cimo da capela para os muitos populares que tentam apanhá-las em baixo). Se quiser pedalar por si, a cidade oferece as BUGA, ou bicicleta de utilização gratuita de Aveiro, disponíveis em vários pontos centrais.

Onda Colossal
www.facebook.com/onda.colossal

EcoRia
www.ecoria.pt

Viva a Ria
www.vivaaria.com

Sensações
www.sensacoes.pt

Douro Acima
www.memoriasdaria.pt

Bik&Vento
www.facebook.com/bikevento

BUGA
www.moveaveiro.pt

São Gonçalinho
www.paroquiaveracruz.com/IgrejasCapelas/SGoncalinho.htm

 

 

4 – Arte Nova e novas arquiteturas

No início do século XX o movimento Art Nouveau chegou a Aveiro e à sua burguesia, influenciando arquiteturas e artes decorativas e marcando a cidade para o futuro, com edifícios de arquitetos como Francisco Silva Rocha ou Ernesto Korrodi. Preservaram-se principalmente as fachadas junto ao Canal Central de Aveiro, permitindo a organização de um percurso pedonal com 28 pontos inscritos na calçada aveirense, a partir da Casa Major Pessoa – considerado o exemplo maior do movimento em Aveiro e casa do recém-inaugurado Museu de Arte Nova, centro interpretativo da rede de motivos Arte Nova na região. É uma maravilhosa forma de descobrir a cidade a pé, da Antiga Cooperativa Agrícola (onde abriu recentemente a Porta Verde, uma loja de objetos e vestuário vintage que à noite acolhe jazz e outras músicas) ao Coreto do Parque Municipal (onde a Companhia Efémero montou o seu Estaleiro Teatral) ou ao Fontanário das Cinco Bicas (na Glória, a parte alta da cidade), numa expedição com guia ou versão para telemóvel (disponível algumas portas ao lado, no Museu da Cidade, também instalado num edifício Arte Nova) e um Dicionário de Arte Nova que aprofunda o tema e indica caminhos para mais longe (como a belíssima Casa Africana, já no Município de Ílhavo). A Casa de Chá que ocupa o piso térreo tem uma pianola preparada e uma mesa-mapa que funciona como aperitivo para a viagem (e à noite tem outros encantos no bar do pátio, sob a forma de caipirinhas, concertos e afins até às duas da manhã, com entrada pela Praça do Peixe, um pólo da vida noturna da cidade, juntamente com o Mercado Negro, uma associação cultural com café bar, num segundo andar de um edifício vizinho). Este investimento arquitetónico encontra a sua versão contemporânea no Campus Universitário de Santiago, que reúne uma das maiores mostras de trabalhos da moderna arquitetura portuguesa, a começar por Álvaro Siza Vieira, autor da Biblioteca da Universidade.

Museu Arte Nova
www.aveiro.co.pt

Casa de Chá
Casa Major Pessoa, R. Dr.Barbosa Magalhães, nº9

Mercado Negro
mercadonegro-aveiro.blogspot.com

Praça do Peixe
vários bares junto ao Mercado do Peixe

Porta Verde
www.lojaaportaverde.blogspot.com

Efémero/Estaleiro Teatral
www.efemero.pt

 

5 – Santa Joana Princesa

Em 1472 a vila de Aveiro aclamou a chegada da Infanta D. Joana que, após rejeitar casamento com três herdeiros de reinos europeus, resolveu recolher-se à clausura do Convento de Jesus, contra a vontade do pai, Afonso V. Tinha 20 anos e a sua chegada inaugura uma série de ocorrências que a época não explicou: uma estrela brilha durante os dias que lhe antecederam a chegada (que coincide com a passagem do Cometa Halley) e que a acompanham até à morte; em 1490, quando à passagem do féretro todas as flores das árvores do claustro murcham e caem, e mesmo além dela – em 1626 o túmulo é aberto e encontra-se o corpo em perfeito estado de conservação. Tudo isto acrescentado a uma vida de clausura e caridade encaminham o processo de beatificação, que se conclui em 1693. O culto de Santa Joana Princesa cresce e passa a celebrar-se o Dia da Cidade de Aveiro no aniversário da sua morte, 12 de maio, com uma procissão em que a imagem da Santa Princesa, acompanhada das suas relíquias (pedaços de cabelo, cinto e vestes), percorre as ruas da cidade atapetadas de junco. No final das celebrações, esculturas e relíquias recolhem ao Museu de Aveiro, instalado no antigo convento em 1912 (após a extinção da Ordem e do colégio que lhe sucedeu) e preservando os bens conventuais, um património riquíssimo e evidente no percurso monumental que mostra os espaços conventuais que sobreviveram – do coro baixo onde está o túmulo de Joana Princesa, uma jóia do barroco, ao refeitório com azulejos do séc. XV e mobiliário original, passando pela Igreja de Jesus recoberta a talha dourada – e na exposição permanente, que mostra desde a iconografia de Santa Joana às obras do Rococó português do século XVIII e passa por duas capelas conventuais. Numa delas, a Sala de Lavor onde Joana terá morrido, o restauro revelou por baixo das pinturas que retratam a vida e morte da Santa, as memórias de uma outra vida no convento, com desenhos de jardins de buxo, criadagem e animais de estimação, como era costume entre as aristocratas da altura. Estas várias camadas de existências refletem-se não apenas na decoração e arquitetura do museu – que foi sofrendo sucessivas adaptações ao longo dos séculos até à requalificação, em 2009, com um projeto do arquiteto Alcino Soutinho, que construiu um novo corpo para exposições temporárias – mas também na sua ligação ao presente e à comunidade, com atividades várias, de concertos a workshops, cinema e tertúlias.

Museu de Aveiro
www.facebook.com/museuaveiro

 

 

6 – Vista Alegre e a arte da olaria

Ex-libris da porcelana portuguesa, imagem da nossa cultura no mundo, criadora de serviços usados oficialmente pelo Palácio de São Bento e pela Casa Branca, a Vista Alegre é, na realidade, um lugar inteiro no município de Ílhavo, que integra a fábrica (fundada em 1824), o museu, o palácio, o bairro operário e demais instalações fundadas pela família Pinto Basto e construídas em redor da capela de Nossa Senhora da Penha de França (além da apetitosa loja, com preços convidativos). Aconselha-se visita demorada com epicentro na fábrica, onde é possível acompanhar todo o circuito de produção e apreciar o trabalho artesanal de escultura e pintura, o mesmo que outrora justificou o selo real e que hoje, associado a designers e artistas contemporâneos, satisfaz a encomenda de peças exclusivas (de Ralph Lauren ao Estado português). O museu conta a história deste património vivo, com alicerces no passado e um presente de 600 trabalhadores que continua a produzir para o futuro. O mesmo faz Mestre Adelino Laranjeira, que aos oito anos começou a calcar barro em Aradas, às portas de Aveiro, e leva já 77 na arte da olaria. Na roda de oleiro construída à sua medida na Funceramics, um projeto de Paulo Sequeira, que continua assim uma antiga olaria familiar, dá a “tese de olaria” a centenas de espetadores atentos (muitas crianças mas não só) que aprendem não apenas a arte, mas também os benefícios e qualidade do barro da região.

Vista Alegre
www.vistaalegreatlantis.com e www.aveiro.co.pt

Funceramics
www.funceramics.pt

 

7 – Os palheiros da Costa Nova, o farol da Barra e a faina do bacalhau

Há um momento em que a ria parece espelhar o mar e as dunas. As casas e as pessoas são apenas um entretanto entre ambos. Sustém-se a respiração ali ao atravessar a ponte, do lado direito a Praia da Barra, do esquerdo a Costa Nova e lá ao fundo a Vagueira, um areal a perder de vista apesar das casas, apesar da erosão da costa, um mar temperamental, paraíso de surfistas e kitesurfers, uma ria batida a vento, paraíso de windsurfers e velejadores, e ambos os lados amados por banhistas e praiantes. O farol, o segundo maior da Europa, vigia a Barra com os seus 62 metros e o seu paredão, que tantas vezes viu partir bacalhoeiros para a faina da Terra Nova, é poiso favorito de pescadores à linha e caminhantes com o nariz na maresia. Ao fundo tem-se vista para o Forte da Barra e para o Jardim Oudinot, com a sua praia fluvial e o Navio Museu Santo André, antigo arrastão bacalhoeiro e pólo do Museu Marítimo de Ílhavo, todo ele dedicado a essa “Faina Maior” que era a demanda do bacalhau. Este ano, para celebrar os 75 anos do Museu e também dos 3 grandes veleiros portugueses que se dedicaram à faina – o Creoula, o Sagres e o Santa Maria Manuela –, o Ílhavo Sea Festival traz a estas águas a frota internacional dos Grandes Veleiros (visitáveis na primeira semana de agosto) e em outubro, inaugura o Aquário de Bacalhaus, homenagem viva ao sustento de toda uma região. Foram os pescadores de Ílhavo que, quando estabilizou a Barra, mudaram alfaias e barcos para a Costa Nova do Prado, guardando-as em barracões que, em meados do século XIX, as famílias dos comandantes dos bacalhoeiros começaram a comprar e a transformar em casas de veraneio (conforme as estâncias balneares europeias) e que chegaram até nós como os coloridos palheiros da Costa Nova. Na origem eram às riscas vermelhas e pretas, como se pode ver no palheiro de José Estêvão, ainda hoje na posse da família.
No areal, Barra e Costa Nova continuam-se uma à outra, de dia a banhos, de noite nos animados bares de praia.

Como ir (partida de Aveiro): de carro, são 15 minutos, de autocarro são 30 (partem da estação de comboios ou junto ao canal principal da ria), de bicicleta são o tempo que as suas pernas levarem a percorrer 10 km – e tanto a Barra com a Costa Nova estão bem munidas de ciclovias.

Ria Activa
www.riactiva.com

Clube de Vela da Costa Nova
www.cvcn.pt

 

 

8 – Reserva Natural das Dunas de São Jacinto

Toma-se a lancha ou o ferryboat que partem do Forte da Barra (ou contorna-se longamente a ria, se vier de carro) para chegar à península de São Jacinto, ali onde há 120 anos os homens compreenderam que nada melhor do que a vegetação para fixar a duna e travar o avanço das águas. À força de braços, sementes e moliço lançaram raízes que se tornaram na Mata de São Jacinto, a flora atraindo fauna e o todo a ser protegido enquanto Reserva Natural a partir de 1979. Pinheiros, choupos, samoucos, carvalhos, um mundo vegetal exuberante irrompe em dois terços dos quase mil hectares que começam na ria e acabam no mar, ou vice-versa, uma praia a perder de vista com dunas de marés entre a água e a mata, pejadas de couves e fenos e narcisos das areias. No interior há charcos artificiais – as pateiras –, onde nidificam patos-reais e mergulhões, rãs e libelinhas, todos essenciais para a manutenção do ecossistema que ainda abriga raposas, coelhos bravos e gatos selvagens. As empenhadas responsáveis da Reserva (e Centro Interpretativo) estabelecem uma luta sem tréguas contra as espécies invasoras – as acácias que, se numa primeira fase fixam o terreno, logo a seguir impedem qualquer outra espécie de lá crescer – e oferecem visitas guiadas a quem se unir à brigada de limpeza que mantém os trilhos praticáveis e alarga o espaço de crescimento para as giestas e sabinas das areias. Quem só quiser passear e ouvir paga €2 – é dinheiro muito bem empregue.

Reserva Natural das Dunas de São Jacinto
portal.icnb.pt/ICNPortal/vPT2007-AP-DunasSJacinto

email: rndsj@icnb.pt

 

9 – Gastronomia e enoturismo

O mar e a ria saltam para a mesa dos restaurantes da região, famosa pelo peixe fresco e pelas suas caldeiradas (a do Mercado do Peixe é deliciosa), com ou sem enguias (um petisco quando fritas). O peixe há que comê-lo grelhado n’ A Peixaria de São Jacinto, com vista para o grelhador (ou no Dóri, da Costa Nova), ou passado pelo olhar renovador da cozinha de autor (no Olá Ria há um mignon de atum caramelizado com balsâmico e coco sobre cebola confitada que é uma delicia, no Palad’arte uma dourada em cama de arroz, lima e espinafres de chorar por mais). Mas nem só de mar vive a região, e o leitão assado em forno de lenha, na Bairrada, a vitela (prove-a “à Vouga”, da Adega do Evaristo) e os rojões (os da Tasca são a preceito) são a prova. No pino do verão, os Festivais do Bacalhau e do Marisco invadem o Jardim Oudinot e a Costa Nova (onde o Mercado está equipado com cozinha que vende marisco já confeccionado), aumentando a oferta já de si generosa. Além dos ovos-moles (em sobremesa, a Trapalhada do Olá Ria é uma surpresa, juntando os ditos a um semifrio de nata e fruta), os gulosos não devem perder o Folar de Vale de Ílhavo (espécie de pão doce com ovos) ou a “bolacha americana” que se continua a apregoar no areal da Barra e da Costa Nova, enquanto em terra os quiosques da especialidade vendem a “Tripa”, a mesma massa mal cozida e recheada com ovos-moles ou chocolate. Na Rota da Bairrada, juntando um percurso pelos produtores de vinho à tradicional gastronomia com base no leitão (mas não só) e às belíssimas ofertas e paisagens da região (a Curia é imperdível), o novo programa Unlimited Colours of Bairrada propõe um olhar diferente sobre uma região surpreendente. As Caves do Encontro são um dos pontos a não falhar, com a sua arquitetura de autor (arquiteto Pedro Mateus), a esclarecedora (e gratuita) visita às caves, e o restaurante (único do circuito de enoturismo com cozinha permanente), onde a equipa do chefe Diogo Rocha dá vida a uma cozinha portuguesa contemporânea que acompanha na perfeição a produção da casa. De destacar o filete de robalo com creme leve de ervilha, pimento seco e coentro – servido com um vinho Encontro 1, branco – e o creme queimado de espumante, delicado doce a partir da redução do Espumante Quinta do Encontro.

Olá Ria
www.ola-ria.com

Mercado do Peixe
Largo da Praça do Peixe, 1 , Aveiro
www.mercadodopeixe.pai.pt

Palad’arte
R. João Afonso, 13, Aveiro
www.facebook.com/restaurantepaladarte

Adega do Evaristo
www.facebook.com/adegaevaristo

Tasca
Petiscos, no Cais dos Mercanteis, 15, Aveiro

A Peixaria
S.Jacinto
www. restauranteapeixaria.pt

Dóri
Avenida Nossa Senhora da Saúde 14 r/c

Costa Nova
Zé da Tripa – Quiosques da Costa Nova e Barra

Festival do Bacalhau
Jardim Oudinot, Gafanha da Nazaré, 15 a 19 Agosto

Festival de Marisco Ria a Gosto
Praia da Costa Nova (Relvado), Ílhavo, 2 a 5 de agosto

Rota da Bairrada/Unlimited Colours of Bairrada
www.rotadabairrada.pt

Caves do Encontro
www.daosul.com

 

 

10 – Ovos Moles

Reza a lenda que uma gulosa freira do Convento de Jesus, castigada com jejum forçado pela madre superiora, desobedeceu inventando uma mistura de gemas de ovo e muito açúcar que escondeu na massa das hóstias, para não ser apanhada em flagrante. Milagre!, gritou-se no convento no dia seguinte, porque doce tão perfeito só poderia ter sido enviado por Deus. E se a explicação é mais prosaica – como muita da doçaria conventual portuguesa, o doce dava destino às gemas de ovo que sobravam das claras que as freiras usavam para engomar os hábitos – o certo é que nesses lugares de fé nasceram os ovos-moles, doce tradicional de Aveiro que se declina em peixinhos, barricas, búzios e conchas feitos de massa de hóstia ou é vertido a solo nas barricas de madeira (ou cerâmica) que o protegem. Primeiro produto de confeitaria português a receber a certificação de Identificação Geográfica Protegida (em 2009), os ovos-moles continuam a misturar-se hoje com a mesma justeza de mãos com que dominicanas, franciscanas e carmelitas os fizeram até ao século XIX. A história partilha-se a brincar na Oficina do Doce (espaço de exposição e demonstração da forma de fabrico dos ovos-moles) e repete-se sem falha no negócio de família de Maria da Apresentação que nasceu em 1882 e continua, 130 anos depois, a ser o mais concorrido ponto de fabrico artesanal e venda dos ovos-moles de Aveiro. A responsável é a octogenária Dona Silvininha que aprendeu a receita com a sogra, Maria da Apresentação, que sucedera a uma tia, que por sua vez aprendeu com uma trabalhadora do convento. Há várias lojas de qualidade na cidade, com a Confeitaria Peixinho à cabeça (que também fabrica os menos conhecidos mas nem por isso menos óptimos biscoitos da região, as Raivas e os Alemães), e todas vendem também os ovos-moles nas centenárias barricas de madeira, que continuam a ser moldadas em madeira de choupo (que não confere cheiro ou sabor à massa) e pintadas à mão pelos primos Joaquim e Abílio Ferreira, segundo as patentes originais e técnicas herdadas dos pais. Em 2009, os ovos-moles passaram a contar também com a sua Confraria, uma associação cultural que, entre várias outras acções, todos os meses incita um restaurante de Aveiro a criar uma sobremesa a partir do doce tradicional (a mousse de requeijão, crocante de massa folhada e ovos-moles do Palad’arte é prova de que o desfio resulta). O lema dos Confrades proclama: “Prometo levar os ovos-moles ao mundo inteiro, se não os comer primeiro”. É justo.

Oficina do Doce
www.oficinadodoce.com

Maria da Apresentação
www.m1882.com

Confeitaria Peixinho
www.facebook.com/pages/Confeitaria-Peixinho/183761831669607

Pastelaria Avenida/Confeitaria Ramos
www.ramospastelaria.com

Palad’arte
www.facebook.com/restaurantepaladarte

A Barrica
Loja e Associação de Artesãos de Aveiro
www.aaabarrica.net

Confraria dos Ovos-Moles
confrariadosovosmoles.blogspot.com

 

por Maria João Guardão

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