10 básicos da Serra da Estrela

on Dec 21, 2009 in Partida | No Comments

Uma cadeia montanhosa domina Portugal. Em pleno centro do país, atingindo o ponto mais alto do território continental – 1993 metros –, é um maciço que se prolonga pela fronteira espanhola. A Serra da Estrela é magnética, feita de bosques densos, de rochedos caprichosos, dos amplos espelhos de água das suas 25 lagoas e rasgada por grandes rios que nela nascem. A neve transformou-a numa concorrida estância de desportos de Inverno. O queijo artesanal, a lã, os pastores, são os seus símbolos-tesouros. Mitos ancestrais e aventuras de heróis-guerreiros eternizam-na. A Serra da Estrela é fascinante e poderosa.

Serra da Estrela

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1 – O MITO
A esta serra que há  muito chamam da Estrela, os romanos deram o nome de “Herminius mons” – os montes de Hermes. O filho de Zeus e da ninfa Maia, antes de ficar na mitologia como Mercúrio, mensageiro dos deuses e protector do comércio, foi adorado como divindade da fertilidade e protector dos pastores. Os pastores, ancestrais calcorreadores da Serra da Estrela, que dela tiram a única riqueza possível: o pasto que alimenta as ovelhas. Hoje ainda se refere a serra como Montes Hermínios. A Estrela, na sua imensidão fria e agreste, é território de solidão. Portanto, propicia mistérios vários. Nem mais nem menos do que Herman Melville, colocou-a no 41º capítulo de Moby Dick, falando dos “prodigies related in old times of the inland Strello mountain in Portugal (near whose top there was said to be a lake in which the wrecks of ships floated up to the surface)” [Aqui, a verdade da vida iguala a lenda, mesmo quando se trata de uma velha história como a da serra da Estrela em Portugal, onde se diz existir perto do cume um lago em cuja superfície flutuam as carcaças de navios naufragados no oceano (…), Ed. Relógio d’Água]. O que Melville faz é citar uma ainda mais fascinante passagem sobre a serra redigida em 1639 pelo intelectual renascentista espanhol Juan Caramuel y Lobkowitz numa das suas obras de história: “Destas [montanhas] a mais notável é a que se chama da Estrela, por olhar de perto os astros. Está guardada por um lago e pelas trevas dos bosques. A água daquele, que é doce, comunica com o Oceano, ainda que esteja afastado vinte léguas. A comunhão do lago e do Oceano revela-se pelo movimento diário das marés, como regista Texeira, a partir do testemunho dos habitantes locais. As tempestades que atormentam os mares agitam e alteram as ondas do lago, que muitas vezes presenteiam com destroços de barcos, arremessados através de aberturas subterrâneas, e aos habitantes [presenteiam] com espanto”. Um mito puro dos antigos, é claro. Não obstante, a magia telúrica perdura nestas montanhas – visite-se o monumental santuário da Senhora da Serra, esculpido num rochedo. Os pastores estarão sempre protegidos pelos deuses e pelos heróis.

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2 – OS HERÓIS
Estamos no ano 147 antes de Cristo. Todo o Leste e Sul da Península Ibérica foram ocupados pelos romanos… Todo? Não! Uma região povoada por irredutíveis lusitanos ainda resiste ao invasor. Viriato (179-139 a.C.) é o chefe, um Vercingétorix ibérico, o pastor-guerreiro da Serra da Estrela que ataca as tropas de Roma nos cumes da montanha. Estátuas celebram-no até hoje e a mitologia portuguesa eternizou-o. As gentes da serra adoptaram-no como herói máximo. Não foi bem assim, é claro; apropriado pelo velho nacionalismo, provavelmente nem nasceu na serra. Mas aí está Viriato, o defensor da serra. E se saltarmos 18 séculos chegamos ao outro herói da região: João Brandão (1825-1880). Para muitos, uma espécie de Robin dos Bosques português; para outros, o salteador clássico. Na verdade, um cacique ilustrado a serviço do governo liberal, que dominou a Beira Alta e a serra durante 40 anos. Lendas múltiplas sobre ambos correm de aldeia em aldeia, e se Brandão e Viriato são epónimos do povo serrano e beirão é porque simbolizam a identidade insubmissa dessa gente – o principal património de quem nunca foi privilegiado com riquezas naturais.

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3 – OS SABORES
O cabrito é o rei da mesa, assado no forno com cebolas, sal, azeite, pimenta, noz moscada e vinho tinto. Os pastos da serra dão ao bicho uma carne tenra como nenhuma. Manda também na mesa a miríade de enchidos feitos na montanha. Mas se estes são pratos existentes um pouco por todo o território – não esquecendo a caça: javali e coelho –, já o arroz de carqueja é gastronomia endémica. A carqueja é uma planta medicinal que cresce na serra. Na cozinha, usando a água em que é cozida, junta-se ao entrecosto cortado fino, às cebolas, ao alho, sal e pimenta, ao vinho tinto e branco e ao arroz agulha, em azeite. Os lugares de prova são muitos e é difícil encontrar um mau restaurante na serra. (Mas, já agora: a UP gosta de ir a um clássico, O Mário, na cidade do Fundão. Marque mesa através do +351 275 750 000, ou veja www.o-mario.com)

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Estância de Ski / Ski Resort

4 – O INVERNO
O cume da serra – a Torre – é o lugar privilegiado dos desportos de Inverno em Portugal. Sete pistas compõem o complexo (www.skiserradaestrela.com). A oferta turística providencia as actividades de ski (descidas nocturnas incluídas), snowboard, trenós e “donuts”, motas de neve e passeios de raquetes de neve. Fora da estação invernosa, ski e snowboard podem ser praticados todo o ano no Skiparque de Manteigas (www.skiparque.pt). Compõe-se de uma pista de aprendizagem com inclinação de 15%, uma descida de 25% e um half-pipe inclinado a 35% (prática nocturna também). Tudo em pleno Parque Natural da Serra da Estrela.

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Parapente / Paragliding

5 – O VERÃO
Há que ir encher os cantis e matar a sede ao Mondeguinho, a nascente do rio Mondego, o mais extenso de Portugal, que nasce a 1427 metros de altura no Corgo das Mós e vai desaguar na Figueira da Foz, percorrendo 227 quilómetros. Ideal em vários trechos para canoagem, repleto de praias seguras – e na proximidade de vales onde a prática de parapente atrai corajosos de todos os cantos da Europa (visite a Federação Portuguesa de Voo Livre em www.fpvl.pt) –, o Mondego irmana com o Alva, seu afluente, que proporciona os mesmos prazeres – a estância fluvial que oferece na pequena vila de Avô é preciosa. Outro grande curso a apreciar é o do Zêzere, a sudoeste, vale de vestígios glaciares de importância europeia. Mas o Verão na serra tem muito mais: os trilhos das 25 lagoas de origem glaciária existentes lá no cimo são um programa veraneante apetitoso. Dois dos percursos são circulares, o das Lagoas da Torre e o das Grandes Lagoas, e o terceiro corresponde ao trajecto Penhas da Saúde-Torre (saiba como organizar os passeios no ponto 8 deste texto).

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Cão Serra da Estrela

6 – OS BICHOS
Existem oito raças caninas portuguesas. O valoroso cão Serra da Estrela é uma delas. Ele “acompanha o seu chefe, o seu dono, na guarda dos seus haveres, neste caso o rebanho de gado bovino e caprino. Não mais o abandona, subindo à serra quando o gado para aí vai, e calcorreando as longas rotas de transumância, quando os herbívoros que estão sob a sua protecção são obrigados a procurar pastos em zonas mais temperadas”, diz-nos a Associação Portuguesa do Cão da Serra da Estrela (www.apcse.com.pt). Afável e corajoso, de fibra talhada pela protecção contra os lobos (que hoje já não existem na serra), é um símbolo destas montanhas, tal como a ovelha, base da subsistência. Outros bichos fascinantes andam por aqui: 90 das 130 espécies de borboletas existentes em Portugal podem ser observadas na serra entre Maio e Agosto. (Escolha óptimos programas de visitas em www.turistrela.pt)

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Queijo da Serra

7 – O QUEIJO
“Mandará a vila de Seia/ quinhentos queijos recentes/ todos feitos à candeia”, para serem levados de presente à rainha D. Catarina, mulher de D. João III, quando nasce sua filha no palácio Real de Coimbra. Quem dá a ordem é a própria Serra da Estrela personificada numa pastora, personagem que Gil Vicente, pai do teatro português, inventa por volta 1527 para Tragicomédia Pastoril da Serra da Estrela. Essa tão antiga referência ao magnífico queijo da Serra – o melhor de Portugal e um dos melhores do mundo – será a primeira na história da literatura. O singular produto, provavelmente introduzido pelos romanos, é um queijo curado e amanteigado. Produz-se com leite de ovelhas das raças Bordaleira Serra da Estrela e, ou, Churra Mondegueira, coalhado pela flor do cardo (Cynara cardunculus L.), planta nativa da região. Produz-se no Inverno e o de labor artesanal é o superior. Acompanhá-lo com pão de forno local e vinho tinto é uma refeição de tal gabarito que seria criminoso visitar a Serra e não a cumprir.

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8 – A HISTÓRIA E O GELO
Podemos passar semanas largas avançando pela Serra e ainda assim muito demoraria até  completar todo o seu mundo. São 16 cidades e vilas de onde partem várias rotas para o viajante conhecer – comece-se pela altaneira Guarda, ou por Almeida, a vila-fortaleza. O turismo cultural é fascinante: leva-nos por uma Rota das Antigas Judiarias; das Aldeias Históricas; dos 20 Castelos; dos Descobridores; da Lã – cruzando 800 anos de história em vestígios, museus e monumentos. O turismo ambiental também espanta: a Rota dos Vales Glaciários (pense-se nas histórias que a geologia nos conta visitando um lugar onde há milhares de anos existia uma calote de gelo com 80 metros de altura); a dos 4 Rios; a das 25 Lagoas; a das Áreas Naturais. Excelente informação e propostas encontram-se em www.rt-serradaestrela.pt (em inglês também), o site da Região de Turismo da Serra da Estrela – muito útil.

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Serra da Estrela

9 – A LÃ
Serra fora encontra-se pequeno comércio junto à estrada, e nem mesmo o Verão diminui as vendas da grande matéria-prima da região: a lã, genuína lã. É o produto mais valioso do artesanato serrano. Todo o processo é feito na Estrela – a tosquia, o cardar, o fiar, o tecer. Os teares manuais preservam padrões antigos e um modo de fazer único. As mantas, gorros, cachecóis, luvas comprovam-no. Também os casacos de pastor, os coletes, em tecido ou em pele, ou as pantufas. Um tesouro de conforto. Também a indústria é singular, com pergaminhos de oito séculos: não se pode perder na Covilhã o Museu Lanifícios da Universidade da Beira Interior (www.museu.ubi.pt), considerado pela Associação Portuguesa de Museus como o melhor do país.

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10 – OS LIVROS
“O serrano é introspectivo, e arranja coisas dentro de si porque, por fora, a força das rochas e das árvores lhe tolda o horizonte.” Quem escreve é António Alçada Baptista (1927-1981) numa apurada definição das gentes da serra. Ele, “o escritor dos afectos”, é um dos quatro autores principais que colocaram a Serra da Estrela nos caminhos profundos das suas obras. Lê-los é ter em mãos os melhores guias de viagem da serra. Virgílio Ferreira (1916-1996), “o” autor existencialista português, em Manhã Submersa define o desejo de alcançar aquele horizonte na figura de um menino retido pelo ensino religioso numa escola da província. Por outro lado, os afectos de Alçada, católico progressista, levariam esse peso-libertação a outras vias: leia-se Tia Suzana, Meu Amor, sobre a infância na urbe beirã. Em A Lã e a Neve de Ferreira de Castro (1918-1974), encontramos um romance libertário sobre os trabalhadores da indústria de lanifícios. E por esta linha chegamos a Aquilino Ribeiro (1885-1963, talvez o maior prosador do século XX português. Natural de Tabosa do Carregal, Sernacelhe, no sopé nortenho da serra, dele leia-se o romance O Homem da Nave, habitado por caçadores e lobos. Há lá uma frase que explica muito: “A Serra da Estrela é uma personalidade”.

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Por João Macdonald

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