10 Básicos da Amazónia

on Apr 1, 2010 in 10 Básicos | No Comments

Rodeada por incontáveis mitos, mistérios e segredos, a Amazónia tem representado para, ao longo dos últimos cinco séculos, um misto de fascínio, cobiça, esperança e aventura. Desde os primeiros exploradores até aos predadores modernos, passando pelos índios que a habitam desde os primórdios, muito do que se passa no mais rico dos ecossistemas da Terra está por compreender. No Ano Internacional da Biodiversidade, damos-lhe a conhecer o maior tesouro natural do planeta, um universo em que a dança-luta entre a humanidade e a natureza continua a travar-se todos os dias.

1– História e emigrantes
Decorria o ano de 1541 quando os espanhóis Gonzalo Pizarro e Francisco Orellana partiram da cidade de Quito, no Peru, atravessando a cordilheira dos Andes e descendo o Grande Rio até chegar ao Atlântico. Rezam as crónicas que foram atacados por mulheres guerreiras – as icamiabas – armadas de flechas e zarabatanas. Apesar do mito não ter sustentação popular, acabou por servir para baptizar aquela região e, em particular um grande rio, o Amazonas. A região floresceu com o apogeu do ciclo da borracha, entre 1879 e 1912, e ficou muito bem descrita pela experiência vivida por Ferreira de Castro na Amazónia, entre os 12 e 16 anos, e transposta em pormenor nas páginas de A Selva (1930) e Emigrantes (1928), entre outras obras.  Outra escritora, também portuguesa, Agustina Bessa-Luís, deixou igualmente registo das suas impressões sobre a região no Diário de Viagem (1991), construído a partir dos “desenhos de meus passos aqui no Brasil” e com passagem obrigatória por Manaus. À região amazónica, tal como a todo o Brasil – desde a sua descoberta, em 1500, por Pedro Álvares Cabral – acorreram muitos portugueses. Para além destes, afluíram à Amazónia espanhóis e africanos, árabes e judeus, japoneses e chineses.

2 – Música e folclore
É lendário o folclore da região, servido por inúmeros mitos que renascem em canções populares, em danças e na poesia. Está perfeitamente integrada a lenda do boto (golfinho) cor-de-rosa que se transforma num homem conquistador e atrevido, com todos os alertas às donzelas, pelo perigo destes seres sedutores as poderem engravidar. Mete respeito ainda a lenda da terrível cobra, na origem dos grandes rios, além de todos os diversos seres mitológicos que se crêem habitar a floresta, manancial que alimenta um cancioneiro e um folclore riquíssimo, com músicas, roupas e ritmos próprios. O expoente máximo da cultura local é o Festival Folclórico de Parintins, que se realiza todos os anos (no último fim de semana de Junho) nessa cidade onde competem as agremiações do Boi Garantido, de cor vermelha, e do Boi Caprichoso, de cor azul, no Bumbódromo com capacidade para 35 mil pessoas.

3 – Teatro Amazonas
Este marco arquitectónico da cidade de Manaus, edificado pelo governador Eduardo Ribeiro e inaugurado a 31 de Dezembro de 1896, é um dos ex-libris da arte e cultura amazónica. Para o construir, segundo o projecto vencedor elaborado pelo Gabinete Português de Engenharia e Architectura de Lisboa, em 1883, foram trazidos da Europa arquitectos, construtores, pintores e escultores. Ao longo dos tempos, a monumentalidade e grandiosidade do teatro não se esgotou na sua arquitectura, pois em plena época áurea da borracha chegavam ao meio da selva, para ali actuarem, alguns dos nomes grandes da ópera e do teatro a nível mundial. Actualmente, entre os diversos eventos que ali têm lugar, talvez o mais mediático seja o Festival Amazonas de Ópera, que decorre entre Abril e Maio, apetitoso aperitivo para os ritmos contagiantes do Festival de Jazz, que chega com as noites quentes de Julho. Já em Novembro, pela passadeira vermelha passarão as vedetas e os convidados internacionais que acorrem às sessões do Amazonas Film Festival, este ano na sua sétima edição. Independentemente da programação, o Teatro Amazonas merece uma visita para conhecer os ornamentos afixados sobre as colunas do pavimento térreo, com máscaras em homenagem a inúmeros dramaturgos e compositores clássicos célebres, de Ésquilo a Moliére, de Mozart a Verdi, bem como o tecto monumental com a pintura “A Glorificação das Bellas Artes da Amazônia”, da autoria do artista italiano Domenico de Angelis. Eduardo Braga, o Governador do Estado do Amazonas, define-o bem: “É o centro da expressão artística do povo amazonense e um ícone da cultura nacional”.

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4 – Água e rios
Apesar da Amazónia designar a maior mancha de floresta virgem do planeta – 5,5 milhões de quilómetros quadrados –, acaba por ser também sinónimo de água.  De toda a água que escorre dos Andes, cordilheira ao longo da costa ocidental da América do Sul, e que cria um dos maiores rios da Terra. O Amazonas, que percorre nove países até chegar ao Atlântico, num total de 6937 kms, tem a maior bacia hidrográfica do mundo. A ele confluem outros rios, como o Negro, Solimões, Madeira, Juruá, Purus, Içá, Uaupés e Japurá, num total de mais de mil afluentes, que contribuem para que se concentre aqui um quinto de toda a água potável do planeta. Na sua corrida furiosa para a foz, o rio Amazonas despeja a cada meio minuto cerca de seis mil milhões de litros de água. E é aí  que ocorre o fenómeno da pororoca, um brutal encontro de marés ou correntes contrárias, capaz de gerar ondas de três a seis metros de altura que se deslocam à velocidade de 30 a 50 kms por hora e podem prolongar-se quase por meia hora.

5 – Fauna e flora
É a diversidade biológica que impera na floresta tropical da Amazónia, considerada a grande reserva da biodiversidade mundial. De acordo com as estimativas, existirão aqui mais de 10 milhões de espécies vivas, cerca de um terço das que habitam o planeta, mas o número real é incalculável. Certo é que dela se extraem mais de 25 por cento das essências farmacêuticas usadas pela medicina, o que não admira, considerando que a ciência aponta para a existência nesta floresta de mais de 10 por cento de todas as espécies de plantas da Terra. Num pequeno pedaço de floresta, equivalente a algumas horas de caminhada, encontra-se mais diversidade de plantas do que em toda a Europa. Por se tratar de uma floresta muito densa – a vegetação rasteira e a luz são escassas no seu interior – as espécies animais limitam-se às aves que habitam as copas, como papagaios, tucanos e pica-paus, e a mamíferos e répteis, como roedores, macacos e lagartos, mas em grande variedade. Para se ter uma ideia do grau de desconhecimento sobre a Amazónia, basta pensar que uma das suas regiões mais ricas em biodiversidade é descoberta recente: o Alto Juruá, no estado do Acre, regista o invejável saldo de 616 espécies de aves, 50 de répteis, 300 de aranhas, 140 de sapos e 16 de macacos, além de 1620 tipos de borboletas. Um dos exemplos mais belas da flora é a vitória régia, planta aquática cuja grande folha em forma de círculo fica à superfície da água. A sua flor (entre Março e Julho) abre apenas à noite e liberta uma fragrância de alperce. Diversos parques naturais e reservas protegem espécies ameaçadas como o peixe-boi, gavião real, onças ou capivaras.

6 – Índios e caboclos
No Amazonas vivem mais de 100 mil pessoas de origem índia, divididas entre 65 etnias, num total de 4 por cento de toda a população do estado. No entanto, devido à forte emigração europeia do final do século XIX e início do século XX, muitos estrangeiros afluíram à região oriundos de todas as partes do mundo. E muitos deles cruzaram-se com índios, dando origem aos mestiços, que constituem hoje cerca de 70 por cento da população. O mais característico é o caboclo, nascido da mestiçagem entre europeus, principalmente portugueses, e índios.

7 – Religião
São diversas as manifestações de culto religioso na região, ainda que sob matriz eminentemente católica, implantada pela intensa colonização e emigração europeia, em particular, a portuguesa. Contudo, após a expansão da crença católica, trazida pelos missionários europeus sobretudo entre os séculos XVIII e XIX, a comunidade índia e cabocla foi absorvendo as numerosas variantes do protestantismo evangélico. São os novos missionários, que vivem na selva e têm conseguido desenvolver a sua crença. Por vezes, assumindo mesmo códigos éticos e morais de estímulo ao trabalho e condenação do consumo de álcool e drogas.

8 – Sabores e aromas
Existe por aqui uma bênção divina, plena de generosidade, que se concretiza numa autêntica explosão de cores, aromas e sabores. Basta passar num mercado para perceber. São os frutos exóticos e os sucos de sabores jamais imaginados – açaí, cupuaçu, bacuri ou o jambú, entre tantos nomes indígenas –, mas também as carnes suculentas e, sobretudo, as centenas de peixes dos rios, com destaque soberano para o pirarucu, tucunaré e o tambaqui. Imagine-se, então, quando essas iguarias são temperadas com cupuaçu, pimenta de cheiro, palmito, graviola ou tucupi. É um misto de sabores, de encanto, de exotismo, a que é difícil resistir.

9 – Protecção e ambiente
Apesar da elevada taxa de desflorestação da selva amazónica e do crescente risco de savanização, o SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza) tem desenvolvido importantes medidas de protecção, conservação e manutenção da biodiversidade e ecossistemas. Um progresso também notado nos parques naturais e reservas biológicas, mas também na renovada cultura aplicada ao turismo. São já bastantes as unidades hoteleiras devidamente equipadas com unidades de tratamento de resíduos e impactos ambientais quase nulos. Estará a Amazónia a ficar mais verde?

10 – Os exploradores
Do mundo completamente desconhecido vislumbrado por Pizarro e Castellano, no século XVI, até à realidade da Amazónia actual, quase tudo o que se sabe sobre a maior floresta tropical do mundo deve-se ao contributo dado pelos expedicionários que a desbravaram em busca de riquezas materiais e científicas. Os relatos são de natureza muito diversa, tão diversa como o bioma em si, misturando experiências pessoais com factos históricos e lendas com narrativas científicas. Sejam quais forem as motivações destes aventureiros, as suas andanças, diários, mapas e relatórios desvendam-nos uma natureza incógnita. Dos conquistadores portugueses setecentistas Raposo Tavares ou Pedro Teixeira (que demarcou para a coroa portuguesa o território amazónico “desbravando terras impenetráveis” e é por isso considerado um herói esquecido), aos padres jesuítas António Vieira ou Samuel Fritz (um evangelizador, o outro cartógrafo), passando pelos oficiais da coroa portuguesa enviados para garantir a posse da região (Mendonça Furtado ou Lobo d´Almada, entre outros) chegam-nos os primeiros relatos. Mais tarde, já no século XIX, começa o interesse dos naturistas e botânicos, dos quais os pioneiros foram Martius e Spix, seguindo-se uma lista de exploradores, que inclui cientistas de vários foros (geólogos, antropólogos, linguistas, etnógrafos) e destemidos aventureiros (pintores, príncipes e princesas, jornalistas e clérigos). Uma palavra ainda para o engenheiro militar e marechal brasileiro Rondon, expedicionário do início do século XX, que reuniu a mais vasta e rica documentação sobre o património amazónico e a cuja obra científica e social se soma a tarefa de pacificador, salvando da extinção algumas das nações indígenas. Conheça estas e outras aventuras no livro, recentemente lançado no Brasil, Grandes Expedições à Amazónia Brasileira 1500-1930, da autoria de José Meirelles Filho.

Vestígios do Eldorado?
De forma algo paradoxal, foi graças à desflorestação para criação de gado que se encontraram vestígios de formas perfeitas escavadas no solo, algures no extremo oeste da Amazónia. Chegou a especular-se se seriam despojos de uma comunidade perdida ou mesmo indícios do lendário Eldorado. O paleontólogo Alceu Ranzi fazia parte da equipa que descobriu essas figuras em 1977 e, desde essa altura, que se dedica ao seu estudo. Graças a fotos de satélite, a descoberta desses géoglifos – que se diz serem datados do século XIII – cresceu para as centenas. Mesmo assim, o mistério subsiste: como terão sido possíveis estes desenhos numa floresta tão densa?

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Por Paulo Portugal


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